Conheça o idioma que teve seu alfabeto criado por dois meninos

Conheça o idioma que teve seu alfabeto criado por dois meninos

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O fulfude (também chamada de língua fulani ou fulani) é falado por até 60 milhões de pessoas, numa área que vai do Sudão ao Senegal e ao longo da costa do Mar Vermelho, incluindo 20 países. Os fulbhe, porém, nunca desenvolveram um alfabeto para a sua língua; em vez disso, usaram caracteres árabes e, às vezes, latinos, mesmo que muitos sons não tenham correspondência em nenhum dos dois alfabetos.

Os irmãos Abdoulaye e Ibrahima Barry cresceram em Nzérékoré, na Guiné. Era 1989 e os dois tinham 10 e 14 anos quando começaram a criar do nada um alfabeto que exprimisse com fidelidade a língua que eles falavam. O pai dos garotos, Isshaga Barry, era falante do árabe e ajudava amigos e parentes lendo cartas; quando ele estava ocupado ou cansado, a tarefa cabia a Abdoulaye e Ibrahima.

Falar fulfude e escrever em árabe

Abdoulaye lembra que “ler era difícil porque as pessoas usavam o som árabe mais aproximado para representar algo que não existe em árabe. Era preciso conhecer bem duas línguas  – o fulfude falado e o árabe escrito – para conseguir decifrar o que estava escrito”. Então, ele e Ibrahima decidiram criar um alfabeto, combinando sons e formas.

O fulfude, cujo alfabeto tem 34 letras, é escrito da direita para a esquerda. (Fonte: Microsoft/Reprodução)

Depois da irmã caçula, Aissata, aprender o novo sistema, Abdoulaye e Ibrahima montaram uma rede capilar de disseminação do alfabeto, ensinando pessoas nos mercados locais e pedindo a cada aluno que passasse o conhecimento a, pelo menos, mais três.

Além disso, começaram a verter livros e escrever publicações em ADLaM sobre a rotina da comunidade, como cuidados infantis e filtragem de água. Já na universidade, fundaram o grupo Winden Jangen – Fulfulde para continuar a difundir o sistema. Mas houve oposição a que o povo fulbhe aprendesse outra coisa que não francês ou árabe. Em 2002, Ibrahima ficou preso por três meses antes de emigrar para os EUA, onde Abdoulaye já morava.

Um dos livros que os irmãos Barry usavam, em meados dos anos 1990, para ensinar o alfabeto ADLaM. (Fonte: Flickr/Stephen Coles)

Do real para o virtual

O ADLaM se espalhou para além da Guiné, mas precisava alcançar o mundo virtual – o obstáculo era o Unicode, o padrão da indústria global de computação para texto, não compatível com o ADLaM. Os irmãos economizaram por um ano para contratar quem criasse um teclado e uma fonte para o novo alfabeto.

Com a incompatibilidade, o ADLaM foi inserido como uma camada sobre o alfabeto árabe. Sem a codificação correta, porém, o texto enviado se transformava em grupos aleatórios de letras árabes, se recebido por um dispositivo sem a fonte específica instalada.

Ibrahima começou a estudar caligrafia e, ao dar uma palestra sobre o ADLaM, fez contatos que o levaram a Michael Everson, um dos editores do padrão Unicode e gerente de programa da Microsoft. Com sua ajuda, Ibrahima e Abdoulaye montaram uma proposta para que o ADLaM fosse adicionado ao Unicode.

O alfabeto, já tranformado em fonte para o Unicode. (Fonte: Sky Knowledge/Reprodução)

O ADLaM então, ganhou o nome pelo qual ficou conhecido. Até então, ele era chamado simplesmente de Bindi Pular, que significa “Escrita Pular”. ADLaM, sugestão de pessoas na Guiné que ensinavam a escrita, é um acrônimo formado pelas primeiras letras das palavras (escritas pelo novo sistema) que formam a frase “o alfabeto que impedirá a perda de um povo”. O Comitê Técnico Unicode aprovou o ADLaM em 2014 e ele foi incluído na versão 9.0, lançada em junho de 2016.

Dentro do Windows, viajando pelo mundo

Mas os irmãos perceberam que o trabalho ainda não havia acabado: o ADLaM precisava também ser suportado pelos principais sistemas operacionais (PC e mobile). A Microsoft trabalhou para desenvolver um componente ADLaM para Windows e Office dentro da fonte Ebrima, que também suporta outros sistemas de escrita africanos.

Abdoulaye (o primeiro à esquerda) e Ibrahima (atrás do designer Stephen Coles, à direita) com Mark Jamra e Neil Patel (à esquerda), que inseriram o ADLaM no Windows. (Fonte: Flickr/Stephen Coles)

O suporte ao ADLaM foi incluído na atualização do Windows de 10 de maio, permitindo que os usuários digitem e vejam o alfabeto no Word e em outros aplicativos do Office. O novo sistema também é suportado pelo sistema de tipos Kigelia, também da Microsoft, que inclui oito alfabetos africanos e será adicionado ao Office ainda este ano.

Ibrahima e Abdoulaye não sabem quantas pessoas no mundo já aprenderam o ADLaM; a conferência anual do ADLaM na Guiné teve 24 países, e há centros de aprendizagem na África, na Europa e nos EUA.

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