A tripulação do Windhuk e os campos de concentração brasileiros

A tripulação do Windhuk e os campos de concentração brasileiros

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A história da tripulação do navio alemão Windhuk, que chegou ao Brasil em 7 de dezembro de 1939, poderia ter-se tornado um dos episódios mais vergonhosos da nossa história, porém, apesar da violência praticada contra esses 244 cidadãos alemães, o que restou do incidente foi uma tradição que se renova há 81 anos.

O transatlântico Windhuk ("Canto do Vento", em tradução livre) era um navio de turismo luxuoso com capacidade para 600 pessoas. Em 1939, tornou-se a maior embarcação alemã e fazia o trajeto Alemanha-África, levando passageiros desde o porto de Hamburgo (Alemanha) até a África do Sul, depois seguindo viagem até Moçambique.

Pôster do Windhuk na Alemanha. (Fonte: Blog Memória Santista/Reprodução)Pôster do Windhuk na Alemanha. (Fonte: Blog Memória Santista/Reprodução)

A fuga dos ingleses

Em setembro de 1939, quando o navio se encontrava atracado na Cidade do Cabo, na África do Sul, o capitão Wilhelm Brauer recebeu ordens para regressar imediatamente ao seu porto de origem. A Inglaterra havia declarado guerra contra a Alemanha e implementado bloqueios aos navios e submarinos germânicos.

Avisados, todos os passageiros preferiram desembarcar ali mesmo sem arriscar de serem perseguidos pela Marinha Britânica. Saindo às pressas, pois a África do Sul era uma colônia inglesa, o navio foi até o porto de Lobito, em Angola, onde esperou meses até conseguir um pouco de combustível e, aproveitando uma brecha deixada pela patrulha inglesa, voltar para casa. 

Navegando em fuga, o comandante Brauer foi em direção à Argentina e, para furar o bloqueio, camuflou o navio: mandou hastear a bandeira japonesa e trocou o nome do transatlântico para Santos Maru. Devido ao mau tempo e à necessidade de reabastecer, foram obrigados a fazer uma escala em um porto que se apresentava seguro: Santos, no Brasil.

Windhuk ancorado no canal do Porto de Santos (Fonte: Blog Memória Santista/Reprodução)Windhuk ancorado no canal do Porto de Santos. (Fonte: Blog Memória Santista/Reprodução)

A chegada ao Brasil

Os práticos do porto de Santos ficaram desconfiados de um barco japonês tão grande, além disso o verdadeiro Santos Maru tinha zarpado dali há poucos dias. Ao subir a bordo, depararam-se com uma tripulação de alemães loiros e de olhos azuis e, então, perceberam o disfarce.

Como o Brasil ainda era um país neutro, nada aconteceu aos tripulantes, mas, como era de praxe em tempos de guerra, o navio ficou retido. Aos poucos, os marinheiros foram autorizados a se mudarem para pensões e casas da Baixada Santista. Dessa forma, como continuavam recebendo seus salários, viraram "turistas" no Brasil.

A convivência harmoniosa com a população santista durou até janeiro de 1942, quando Getúlio Vargas declarou guerra ao Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Os passageiros do Windhuk foram, então, presos e conduzidos para a Casa de Detenção do Carandiru, em São Paulo.

Os campos de concentração brasileiros

(Fonte: Segunda Guerra.org)(Fonte: Segunda Guerra.org)

Após passarem um tempo na Casa de Detenção de Imigrantes na capital paulista, os tripulantes do Windhuk acabaram se tornando os primeiros ocupantes dos campos de concentração brasileiros, para onde foram levados mais tarde outros imigrantes japoneses e italianos.

Levados em um trem lacrado e com uma dramática escolta de soldados fortemente armados, os alemães, àquela altura já adaptados à cultura brasileira, foram divididos em grupos e mandados para cinco campos de concentração: Bauru, Ribeirão Preto, Pirassununga, Guaratinguetá e Pindamonhangaba. 

No último, o maior deles, os alemães foram autorizados a construir suas próprias casas, criar galinhas e ordenhar vacas, além disso eles jogavam futebol contra times locais, faziam compras, bebiam com os guardas e, eventualmente, a orquestra do navio saía para tocar em bailes na cidade.

Fonte: Restaurante Windhuk/ReproduçãoFonte: Restaurante Windhuk/Reprodução

O fim da guerra

Quando a guerra acabou, em 1945, o governo brasileiro não sabia o que fazer com aqueles jovens e ofereceu-lhes duas opções: voltar para a Alemanha, então arrasada pela guerra, ou permanecer no Brasil, com direito à cidadania brasileira. Dos 244 tripulantes do Windhuk, apenas um retornou ao seu país.

A partir disso, cada um seguiu sua vida em território brasileiro pelos estados do Sul e Sudeste. Os que tinham experiência culinária foram para Campos do Jordão e ajudaram a transformar o Grande Hotel da cidade em um centro de excelência gastronômica. 

Um dos tripulantes abriu um restaurante em São Paulo, na Alameda dos Arapanés, no bairro de Moema. O nome dado ao estabelecimento foi Windhuk, e o local foi escolhido para celebrar anualmente, em 7 de dezembro, a chegada daqueles alemães ao Brasil. Os descendentes mantêm a tradição até hoje. 

Do Windhuk original, que transportou soldados americanos nas guerras da Coreia e do Vietnã, restou apenas o majestoso sino de 127 quilos, que foi levado para o Quartel-General dos Fuzileiros Navais do Campo LeJeune, na Califórnia. Lá, ele continua repicando até hoje, como se relembrasse de sua epopeia gloriosa.

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Esse artigo foi inspirado pela história relatada com carinho por Hans-Jürgen Schumann.

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