Hákarl: a repugnante iguaria islandesa venenosa e apodrecida

Se você quer conhecer um país ou região bem, a culinária é considerado o melhor caminho para se aproximar de aspectos culturais. Isso porque experimentar um prato típico da Coreia do Sul, como o petisco de bicho-da-seda (Beondegi), pode ser uma verdadeira aventura

São por pratos como esse que iguarias de outros países tornaram-se sinônimo de estranheza, pelo menos na maioria das vezes, principalmente quando se trata de algo inesperado, como as tarântulas fritas do Camboja, ou olhos de atum do Japão.

Mas imagine então comer algo altamente podre, com cheiro de urina e potencial venenoso? O hákarl, um prato nacional da Islândia, significa literalmente “tubarão podre” em islandês, preparado através da carne do tubarão-da-Groenlândia.

Na história

(Fonte: GreenMe/Reprodução)(Fonte: GreenMe/Reprodução)

Em seu livro Kitchen Confidential: Adventures in the Culinary Underbelly, o chef Anthony Bourdain (1956-2018) descreveu a iguaria como “a pior coisa e a mais nojenta que ele comeu na vida”. Até mesmo aqueles que têm um pouco mais de experiência comendo hákarl o descrevem como desagradável, pois o cheiro e sabor é algo semelhante ao de amônia com podridão.

O hákarl surgiu quando os primeiros residentes islandeses se estabeleceram na ilha séculos atrás, então suas opções de alimentação eram limitadas, sobretudo em temperaturas muito baixas. Os povos precisavam de algo grande e que os sustentassem por mais tempo, em vez de ficarem caçando peixes no gelo longe do calor de fogueiras.

(Fonte: Wikipedia/Reprodução)(Fonte: Wikipedia/Reprodução)

A saída foi se aproveitar do Somniosus microcephalus, mais conhecido como tubarão-da-Groenlândia. Abundante em águas geladas e considerado um dos maiores do mundo, chegando a medir 6,5 metros de comprimento, ele era a fonte perfeita de alimento. Contudo, o único problema é que sua carne contém altos níveis de ácido úrico e óxido de trimetilamina, dois compostos que atuam como anticongelante natural para proteger o tubarão das águas do Ártico.

Os produtos químicos são tão concentrados que algumas mordidas na carne não curada são suficientes para provocar efeitos semelhantes ao de uma embriaguez extrema no ser humano e causar sua morte.

Mas os islandeses daqueles tempos não se preocuparam com isso e, em vez de procurarem uma fonte alternativa de alimento, eles resolveram encontrar uma maneira de tornar o tubarão comestível.

O preparo

(Fonte: Taringa!/Reprodução)(Fonte: Taringa!/Reprodução)

Através de um método bastante incomum de purificação e preservação, muito usado pelos Vikings, os islandeses, primeiro, mataram o turbarão e depois o decapitaram — visto que a cabeça não serve como comida. Depois, o cadáver do tubarão foi jogado em um buraco raso na areia, e pedras foram depositados sobre ele com objetivo de extrair os líquidos da carcaça.

O cadáver permanecia em sua cova de 6 a 12 semanas, fermentando em meio aos próprios fluidos corporais que a tornam tão venenosa. Esse processo é feito até hoje dessa forma, ainda que de maneira menos primitiva.

(Fonte: Atlas Obscura/Reprodução)(Fonte: Atlas Obscura/Reprodução)

Por fim, o tubarão é exumado, cortado em tiras e colocado em uma cabana especial para secar por 2 a 4 meses — isso mesmo, você não leu errado. Os fabricantes de hákarl sabem que a carne está pronta apenas pelo cheiro. Outra maneira de saber que a iguaria está pronta é quando o lanho da carne do peixe adquire uma camada externa amarronzada, literalmente uma crosta apodrecida que é removida antes do consumo.

Então, o hákarl é servido em cubos e consumido com cálices de aguardente local, denominada Brennivin. Para aqueles que nunca provaram, é aconselhado tapar o nariz no primeiro pedaço (e nos seguintes, se aguentar, claro) para evitar vômitos devido ao cheiro putrefato.

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