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Cucuteni: a civilização antiga que queimava suas casas de propósito

Por volta de 7 mil anos atrás, entre 5500 a.C. e 2750 a.C., durante o período Neolítico, algumas regiões dos atuais países da Moldávia, Romênia e Ucrânia foram povoados pela cultura do povo nômade conhecido como Cucuteni-Trypillia. Classificados como "a sociedade mais antiga da Europa", eles podem muito bem ter sido um dos principais progenitores da civilização humana.

Apesar de não serem tão conhecidos como os sumérios, com os quais dividiam espaço, eles se destacaram por seus enormes assentamentos, que atingiram mais de um milhão de habitantes em seu ápice, e foram repletos de construções de arquitetura impressionante, com algumas de até 700 metros quadrados e mais de um andar.

Os cucuteni também entraram para a história por criar peças artísticas de cerâmica com belos padrões geométricos e estatuetas misturando características humanas e animais. O mais surpreendente nisso, no entanto, é que os artefatos possuíam um estilo considerado semelhante à arte moderna.

Mas não há nada mais marcante sobre os cucuteni do que eles terem sido a civilização antiga que ateava fogo nas próprias casas.

O fenômeno

(Fonte: GettyImages/Reprodução)(Fonte: GettyImages/Reprodução)

Os edifícios erguidos pela cultura cucuteni não intrigam os arqueólogos até hoje pelos seus vários andares e superfícies de até 7 mil metros quadrados, quase o tamanho de duas quadras de basquete, mas pelo seu estado peculiar de preservação, sendo que foram queimados repetidamente por esse povo a cada 60 a 80 anos.

Em seu artigo The Age of Clay: The Social Dynamics of House Destruction, a arqueóloga sérvia Mirjana Stevanovic argumentou que a civilização cucuteni queimava suas casas de maneira deliberada como um ato simbólico, uma espécie de catarse para quando seus habitantes faleciam, transformando-as de habitações de vivos para "casas dos mortos", como chamavam. 

Por outro lado, a abordagem do arqueólogo russo Evgeniy Yuryevich Krichevski foi a mais difundida e amplamente aceita, de que esses povos pré-históricos destruíram suas estruturas com intuito de reforçá-las. Isso porque, segundo ele, o calor das chamas endurecia as paredes de barro, fora que a fumaça contribuía para fumegar os espaços das pragas.

(Fonte: GettyImages/Reprodução)(Fonte: GettyImages/Reprodução)

Em 1977, para testar essa teoria, os arqueólogos Arthur Bankoff e Frederik Winter compraram uma casa em ruínas de uma família camponesa no Vale do Baixo Rio Morava, na Sérvia, então parte da Iugoslávia. A dupla ateou fogo no local para descobrir como a construção reagiria às chamas. Como imaginavam, apenas o teto da casa foi destruído, enquanto as paredes rebocadas de barro permaneceram intactas, comprovando que as casas não só resistiam àquele tempo como também foram queimadas intencionalmente.

Os pesquisadores também ficaram surpresos com a quantidade de combustível que os povos pré-históricos usaram para atingir as temperaturas máximas registradas no sedimento. Estima-se que tenham usado mais de 130 árvores como lenha para cada casa de um andar e 250 árvores para casas de dois andares. Portanto, um assentamento de 100 casas exigia 3,8 quilômetros quadrados de floresta como lenha.

Segundo os pesquisadores, esse dado não apenas descarta a possibilidade de que o fenômeno "horizonte das casas queimadas" – como é chamado o ato pré-histórico de queimar casas de propósito – possa ser explicado principalmente por guerras, incêndios florestais ou outros infortúnios, mas também realça a capacidade logística absurda dos povos antigos.

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