Turismo atômico: testes nucleares na Las Vegas de 1950

Turismo atômico: testes nucleares na Las Vegas de 1950

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Em 16 de julho de 1945, a Experiência Trinity marcou o início da era atômica, com a detonação da primeira arma nuclear da história. A reação em cadeia do uso da tecnologia nuclear causou mudanças drásticas no pensamento sociopolítico mundial tanto quanto significou o início do progresso para a modernidade, apesar de ter sido motivo para destruição em guerras que inviabilizaram o uso pacífico e adequado da energia para a evolução da indústria global de exportação.

Para explorar os locais que serviram como zona nuclear, surgiu o turismo atômico. Com visitações a sítios onde aconteceram testes, museus com armas nucleares e outros lugares que foram importantes nos tempos da guerra, é possível aprender sobre a ambígua história cultural de uma nação.

Apesar de esse tipo de atração ser considerado novo, em 1950, no apogeu da Guerra Fria, já acontecia de uma forma totalmente equivocada em Las Vegas.

A cidade das luzes

(Fonte: Daily Mail/Reprodução)
(Fonte: Daily Mail/Reprodução)

Em 27 de janeiro de 1951, a detonação de uma ogiva na Área de Testes de Nevada, uma região desértica a cerca de 105 quilômetros a noroeste de Las Vegas, causou um espetáculo no céu com a famosa nuvem em formato de cogumelo e marcou o início de milhares de testes nucleares realizados pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos em 40 anos de atividade.

Rapidamente, a Câmara de Comércio de Las Vegas passou a imprimir calendários para anunciar os horários e melhores locais para assistir ao "show de luzes". A imprensa foi mobilizada para divulgar detalhes e promover comerciais que enalteciam os testes nucleares com um slogan parecido com "nós trabalhamos e você se diverte". Não demorou para que Vegas fosse apelidada de Cidade Atômica, atraindo cerca de 25 mil pessoas todos os meses.

Naquele tempo, a indústria de cassinos na Cidade do Pecado ainda estava dando seus primeiros passos, então os empresários usavam seus bares de extremo luxo para exibir a melhor vista do norte, onde aconteciam as detonações. "Coquetéis atômicos" eram servidos enquanto belas mulheres disputavam o título de Senhorita Energia Atômica. Para muitos magnatas, a melhor coisa que aconteceu na cidade foi a bomba atômica.

A explosiva economia

(Fonte: Research Gate/Reprodução)
(Fonte: Research Gate/Reprodução)

Entre 1951 e 1960, a população de Las Vegas cresceu 161%, quando a cidade se tornou o mais novo ponto turístico da América. Guias cobravam até US$ 3 para que as pessoas assistissem à atração, e viagens internacionais eram feitas tendo o local como destino principal.

A economia explodiu, e o comércio cresceu exponencialmente com a venda de todo tipo de quinquilharia produzida para fomentar a nova indústria. Donos de cafés entraram com petições para mudar o nome dos estabelecimentos para algo que fosse mais temático, o que causou um conflito ferrenho por conta de ideias iguais. Joe Sobchki, proprietário do antigo Virginia's Eatery, renomeou a lanchonete para Café Atômico, passando a servir comidas e bebidas ultrassecretas e nucleares enquanto os clientes aproveitavam a vista que o telhado do local proporcionava.

Obcecadas pelas nuvens de cogumelo geradas pelas bombas, as pessoas discutiam sobre o apocalipse e as tensões e reforçavam as paranoias sobre o futuro incerto. Em um tempo de guerra marcado pelo medo, aquele espetáculo fascinante no céu tinha como significado um anúncio de morte para a população de Hiroshima e Nagasaki.

Atração mortal

(Fonte: Pinterest/Reprodução)
(Fonte: Pinterest/Reprodução)

As explosões aconteciam em Yucca Flat, uma bacia de drenagem fechada em meio ao deserto norte-americano, o que os cientistas acreditavam que diminuiria as ameaças às pessoas que moravam perto e preservaria uma visão do tão aguardado espetáculo. As escolas colocaram placas de identificação para as crianças, em caso de ocorrer algum acidente nas instalações em que aconteciam os testes nucleares. Os pequenos foram instruídos a se esconderem embaixo das mesas, se necessário.

Muito embora as pessoas fossem conscientes do estrago causado por uma bomba, praticamente ninguém sabia dos malefícios provocados pela radiação emitida por ela. Os soldados foram os primeiros expostos aos riscos; muitos desenvolveram câncer e tiveram a capacidade reprodutiva afetada. Na época, os oficiais militares disseram que qualquer um que fosse exposto demais às ondas radioativas poderia simplesmente tomar um banho logo em seguida e tudo ficaria bem.

(Fonte: Atomic Heritage Foundation/Reproudção)
(Fonte: Atomic Heritage Foundation/Reprodução)

Aparentemente, o Departamento de Energia dos EUA não levou em consideração que, apesar de o sítio atômico ter sido colocado no meio do deserto, os fortes ventos carregariam as cinzas nucleares até a população. A cidade de St. George, em Utah, no nordeste de Las Vegas, sofreu com uma enorme incidência de câncer e doenças pulmonares que levaram milhares de pessoas à morte até meados de 1980.

O último teste aberto aconteceu em 1962. No ano seguinte, após a Crise dos Mísseis em Cuba, entrou em vigor o Tratado de Proibição Limitada de Testes Nucleares, que encerrou a detonação de bombas na superfície terrestre; contudo, durante 30 anos, elas continuaram acontecendo no subsolo. Entre 1951 e 1992, estima-se que o governo norte-americano tenha conduzido 1.021 testes nucleares na base de Nevada.

Por um tempo, o turismo da região cessou e a economia despencou, tornando a cidade o lar de empresários e magnatas que fizeram a indústria dos cassinos acontecer. Os comerciantes voltaram a usar os antigos nomes em suas lojas e houve um êxodo das pessoas que tinham se mudado apenas para ficar mais perto da maior atração da cidade.

Atualmente, a área na qual os dispositivos eram detonados sustenta apenas as sóbrias marcas de uma era em que a diversão consistia em não pensar por alguns minutos nas incertezas do futuro que a guerra causava, ainda que isso significasse assistir ao próprio medo de camarote.

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