Será que a Antártica pode voltar a ser uma floresta tropical?

Há cerca de 90 milhões de anos, o continente que hoje chamamos de Antártica era coberto de vegetação, como uma floresta tropical, e tinha um grande número de animais, como os dinossauros. Sua temperatura não era quente como a da Amazônia ou da Mata Atlântica, mas o clima era temperado, típico de regiões mais altas do sul do Brasil — podemos dizer que a Antártica era como Curitiba (PR).

A descoberta foi feita por uma equipe de 39 cientistas do Instituto Alfred Wegener de Pesquisa Polar e Marinha, na Alemanha, liderada pelo geólogo marinho Johann Klages. Eles escavaram o solo abaixo do oceano, a cerca de 900 quilômetros do Polo Sul. O mais perto que outras equipes já tinham escavado havia sido entre 1 mil e 1,5 mil quilômetros, mas do Polo Norte. 

Imagem: Alfred Wegener Institute/James McKay (CC-BY 4.0)(Fonte: Alfred Wegener Institute/James McKay (CC-BY 4.0))

Tal trabalho só foi possível porque o gelo ali está derretendo, expondo o mar e o solo abaixo dele. O objetivo é entender como o clima nos polos mudou ao longo da história da Terra e como pode mudar de novo, por ações humanas.   

Um trabalho complexo e em equipe

O processo no qual os cientistas descobriram esse fenômeno é tão curioso quanto o próprio achado. Em entrevista à revista Vox, Klages contou que a equipe embarcou em um navio quebra-gelo, o Estrela Polar, um dos maiores e mais capazes do mundo. A embarcação leva 50 cientistas e 50 técnicos do Ártico para o Antártico no verão de cada hemisfério. 

Com os pesquisadores e técnicos, uma broca gigantesca de mais de 10 toneladas e que precisa de 7 contêineres para ser despachada perfura o solo. Na escavação de 2017, que trouxe os resultados descritos aqui, foi a primeira vez que essa broca foi usada. 

A equipe precisa de muito cuidado para usá-la, pois se um pedaço de gelo se chocar com o navio os cabos de fibra óptica que o ligam à broca podem se partir, deixando uma máquina caríssima perdida no fundo do oceano. Para evitar isso, dois helicópteros do Estrela Polar monitoram o tempo ao redor do navio. 

Imagem: Alfred Wegener Institute/James McKay (CC-BY 4.0)(Fonte: Alfred Wegener Institute/James McKay (CC-BY 4.0))

"Eu acho que vi uma planta!"

Klages e seus colegas estão acostumados a escavar o solo polar, afinal ele é geólogo marinho especializado na área. Porém, na expedição de 2017, eles acharam algo bem especial: fósseis de plantas, a cerca de 900 quilômetros do Polo Sul. Para encontrar isso nas amostras, eles tiveram o auxílio de máquinas de tomografia computadorizada.

Para entender melhor o fenômeno, a equipe levou climatologistas para o trabalho, os quais fizeram modelos matemáticos e chegaram a uma estimativa do "superefeito estufa" que atingiu o mundo há 90 milhões de anos: havia 1.100 partes por milhão de CO2 na atmosfera — quatro vezes mais que os níveis pré-Revolução Industrial, e hoje estamos em 420 ppm.

Imagem: Mart Productions/Pexels(Fonte: Mart Productions/Pexels)

Segundo Klages, mesmo o planeta sendo mais quente naquela época, o clima era mais proporcional, sem tantos extremos. É possível dizer que o que está salvando a Terra de virar um forno é o gelo nos polos, algo que não existia na época e que está deixando de existir agora, em meio às mudanças climáticas. Sendo assim, o trabalho da equipe de Klages ajuda a entender até onde o aquecimento global pode nos levar.

Se a Antártica voltar a ser uma floresta tropical, como vamos ficar aqui no Brasil tropical? Falando em Brasil, um artigo publicado recentemente por pesquisadores brasileiros encontrou pedaços de carvão na ilha James Ross, também na Antártica. Isso é evidência de que ocorriam incêndios florestais no atual continente gelado — reforçando a descoberta de Klages. 

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