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Pensar em ficar bêbado influencia o efeito do álcool no corpo?

Recentemente, a cantora e atriz Lady Gaga chamou atenção por uma entrevista, em que ela disse se sentir bêbada com os drinks cenográficos (que não contêm álcool) dos filmes. Veja o vídeo:

Lady Gaga é conhecida pelas histórias fantasiosas que conta em suas entrevistas, mas — por incrível que pareça — esta pode ter um fundinho de verdade: a ideia de ficar bêbado realmente influencia nosso comportamento — mais até do que o álcool presente ou não na bebida. 

Isso acontece mais ou menos como o efeito placebo — aquele em que os remédios funcionam apenas pela nossa fé de que eles funcionam, mesmo que sejam pílulas falsas. David Robson, divulgador científico e colunista da BBC Future, descreve diversos estudos que comprovaram esses processos em seu livro The Expectation Effect (O efeito da expectativa). 

As expectativas podem influenciar os benefícios dos exercícios físicos, a força de vontade, as experiências com insônia e fusos horários — e até o efeito do álcool no comportamento.

Estimulante ou relaxante?

Em uma roda de amigos, cada pessoa pode ter uma reação diferente ao álcool: alguns ficam mais introspectivos, alguns dormem… enquanto outros ficam superanimados, dançam até de manhã e se tornam o centro das atenções da festa. Mas a verdade é que essa segunda opção não deveria acontecer — não pela ação biológica do álcool, pelo menos.

Isso porque as propriedades neuroquímicas do etanol atuam como sedativo no nosso sistema nervoso central. Ainda assim, algumas pessoas sentem efeitos estimulantes com ele… Como?

A questão é que as pessoas associam o álcool a certas experiências, como ficar animado ou falante. Essas ideias ficam armazenadas no inconsciente e geram "profecias autorrealizáveis". Então, se eu acredito que vou ficar animado, é isso que vai acontecer — mesmo que o efeito fisiológico do álcool não seja esse. 

Se, para você, essa história parece apenas invenção da Lady Gaga, saiba que há experimentos científicos que comprovam esse "efeito placebo" do álcool. 

Uma pesquisa da Universidade de Grenoble (França) pediu que os participantes temperassem pratos de batatas com sal e molho picante para outras pessoas — isso com o intuito de testar a agressividade deles. Quem acreditava estar mais bêbado caprichava mais no tempero — para fazer seus parceiros sofrerem —, mesmo que tivessem bebido coquetéis sem álcool. 

Em outro estudo, a mesma equipe de cientistas deu coquetéis para os participantes e pediu que eles filmassem comerciais para a bebida. Depois, eles precisavam avaliar a qualidade do que fizeram — o que poderia acanhar pessoas sóbrias. Pessoas que julgavam estar bêbadas se avaliaram melhor, enquanto o teor de álcool no sangue pouco importou. 

Imagem: Freepik(Fonte: Freepik)

Para o bem e para o mal

Em outras experiências, cientistas fizeram participantes preencherem questionários com suas percepções sobre o álcool: dizer se ficam animadas, agressivas, sociáveis ou mal-humoradas, por exemplo, quando bebem. Então, eles relataram o quanto beberam e como se sentiram, ao longo de 30 dias. 

Quem fazia associações positivas com o álcool tendia a beber mais — e essas expectativas se cumpriam, na prática. Já aqueles que associam o álcool com agressividade ou assumir riscos acabavam tendo experiências nesse sentido. Sendo assim, nossas expectativas sobre o álcool podem nos influenciar para o bem e para o mal.

Uma vez que sabemos disso, os efeitos continuam funcionando? É possível controlar nossa resposta ao álcool? Segundo alguns experimentos científicos, sim: pessoas que tomaram pílulas de placebo sentiram alívio de suas dores, mesmo sabendo que era placebo, quando as expectativas eram direcionadas nesse sentido. 

Sendo assim, realmente é possível que Lady Gaga se sinta bêbada com os drinks cenográficos — se ela criou essa expectativa em sua mente. Já aquela história de ser possuída pelo espírito de Patrizia Reggiani — que está viva — só pode ser invenção mesmo!

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