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O que explica a onda de mulheres se suicidando na Índia?

Como indicado em um estudo feito pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), o suicídio é um problema de saúde pública que afeta mais de 800 mil pessoas em nível global todos os anos.

Entre os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a Coreia do Sul lidera o ranking onde pessoas mais se suicidam na proporção de casos por 100 mil habitantes em relação às demais nações. A American Foundation for Suicide Prevention fez um levantamento em 2020 que indicou que os adultos entre 25 e 34 anos são os que mais abrem mão da própria vida.

No mesmo ano, também foi registrado que os homens estão mais propensos a morrerem por suicídio 3,88 vezes mais do que as mulheres. Estima-se que, em média, ocorrem 130 suicídios de homens por dia, sendo que em 52,83% dos casos, armas de fogo são os principais meios.

Os especialistas estão chamando de fenômeno uma onda de suicídios de mulheres na Índia que começou em 2020.

A outra pandemia

(Fonte: iStock/Reprodução)(Fonte: iStock/Reprodução)

Os noticiários e informes do mundo todo fizeram da Índia uma das vitrines da pandemia do coronavírus no quesito má administração dos casos, resultando em mais de 500 mil mortes até então.

Como consequência disso, em abril de 2020, noticiários indianos registraram que duas mulheres no estado central de Madhya Pradesh se mataram após perderem seus entes queridos para a doença. Logo em seguida, a filha de uma dessas mulheres morreu após pular de seu apartamento em um bairro industrial do distrito de Raisen.

Algo parecido aconteceu na cidade de Dewas, a cerca de 200 quilômetros dos casos, quando outra mulher se suicidou uma semana depois que perdeu três membros de sua família para à COVID-19.

De acordo com uma assistente social da Linha Direta de Prevenção ao Suicídio de Jeevan, em entrevista à DW, as mulheres já sofriam de depressão não diagnosticada e não tratada, e a pandemia apenas exacerbou a condição.

(Fonte: India New England News/Reprodução)(Fonte: India New England News/Reprodução)

E elas não foram as únicas. O primeiro ano da pandemia aumentou em 25% a prevalência global de transtorno de ansiedade e depressão, de acordo com um resumo científico divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), destacando que a disponibilidade de serviços de saúde mental também foi afetada pela pandemia.

Em resposta a isso, 90% dos países pesquisados já incluíram saúde mental e apoio psicossocial em seus planos de resposta à COVID-19, mas a falta de informações sobre o impacto emocional da doença ainda é muito grande. 

“Este é um alerta para que todos os países prestem mais atenção à saúde mental e façam um trabalho melhor no apoio mental de suas populações”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

Solidão e abusos

(Fonte: Outlook India/Reprodução)(Fonte: Outlook India/Reprodução)

Na Índia, um suicídio de mulher casada e dona de casa acontece a cada 25 minutos. Dados divulgados pelo National Crime Records Bureau (NCRB) mostram que 22.372 mulheres tiraram a própria vida no ano passado. Isso equivale a uma média de 61 suicídios por dia. Elas representam 14,6% do total dos 153.052 suicídios registrados no país do sul da Ásia em 2020, e mais de 50% do número total de mulheres que se mataram. A nação apresenta também o maior número de suicídios, com homens liderando 1/4 ao nível global, enquanto as mulheres indianas representam 36% de todos os suicídios na faixa etária de 15 a 39 anos.

Na maioria dos casos, os relatórios culpam as suicidas por problemas familiares ou questões relacionadas ao casamento. Mas existe uma rede de problemas e lacunas no sistema e na sociedade que agravam o problema.

A começar que depressão e ansiedade ainda são tabus na Índia, portanto, poucas mulheres procuram ajuda profissional, em sua maioria devido à vergonha associada à doença, e também porque não se sentem à vontade para falar abertamente sobre seus sentimentos e experiências.

Um grupo menos socialmente consciente e financeiramente dependente, as donas de casa são privadas de uma alternativa para conseguir fazer um tratamento, acabando abandonadas para lutar contra algo que não sabem explicar, até que alcance um nível insustentável.

(Fonte: The Stories of Change/Reprodução)(Fonte: The Stories of Change/Reprodução)

A violência doméstica entra como um agravante na situação. Em uma pesquisa feita pelo governo indiano, cerca de 30% de todas as mulheres alegaram que enfrentam violência conjugal, que pode começar já nos 18 anos, a idade em que as jovens indianas costumam se casar.

De repente, sua vida se resume a arrumar a casa, cozinhar e cuidar dos filhos. Imediatamente, todo o tipo de restrição é colocada sobre ela, reduzindo suas chances de liberdade pessoal, incluindo acesso a algum dinheiro próprio.

Em um ambiente que pode ser nocivo, sendo submetidas a todos os tipos de abusos e humilhações domésticas, é uma questão de tempo para que todos seus anseios sejam lentamente extintos, dando espaço ao desespero e decepção sistemáticos sobre a própria existência.

Em mulheres mais velhas, o Dr. Verma Srivastava alega que as razões para o suicídio são diferentes. Muitas delas acabam enfrentando a chamada "síndrome do ninho vazio", quando se encontram sem seus filhos por perto, depois que esses cresceram e deixaram a casa. Sintomas da perimenopausa podem causar depressão e crises de choro, podendo levar ao suicídio.

Vencendo o silêncio

(Fonte: The Borgen Project/Reprodução)(Fonte: The Borgen Project/Reprodução)

“Muitas mulheres que permanecem em situações ativas de violência doméstica mantêm sua sanidade apenas devido ao apoio informal que recebem”, disse a psicóloga Chaitali Sinha à DW.

Nos 3 anos que trabalhou em um hospital psiquiátrico do governo em Mumbai, aconselhando sobreviventes de tentativas de suicídio, ela descobriu que as mulheres formavam pequenos grupos de apoio enquanto viajavam em trens locais ou com vizinhos durante compras no mercado.

Portanto, apesar da dificuldade, elas conseguiam vencer o silêncio e compartilhar o que estavam sentindo de igual para igual. Mas a instauração da pandemia privou muitas delas dos métodos paliativos de lidar com o problema, potencializando gatilhos que levaram à alta em suicídios.

Os especialistas em saúde mental acreditam que a mudança no problema deve acontecer da base da sociedade, aumentando a participação feminina na força de trabalho, conexão com familiares, amigos, comunidade, apoio social e independência financeira.

No entanto, isso só deve acontecer quando a sociedade enxergar tratar as mulheres de maneira diferente.

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