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As doentias regras contratuais de Hollywood em 1930

Quando a adaptação cinematográfica do livro O Conde de Monte Cristo, escrito por Alexandre Dumas, surgiu nas telas de cinema em 1908, era o nascimento de Hollywood. A partir desse momento, foi apenas um caminho de ascendência contínua até que essa indústria de fazer filmes se tornasse referência mundial, principalmente durante os “anos dourados” da década de 1930.

Com uma franquia de estúdios na Califórnia, começando em Sunset Boulevard (Los Angeles), Hollywood fabricou produções, mas também grandes e notórios artistas, consumidos pelos "ossos do ofício".

Da mesma maneira que figuras, como Eddie Mannix da MGM Studios, se esforçaram para encobrir qualquer escândalo, os artistas também foram submetidos a cláusulas contratuais que poderiam destruí-los.

Perda de identidade

Rita Hayworth. (Fonte: Metropoles/Reprodução)Rita Hayworth. (Fonte: Metropoles/Reprodução)

Além de não terem controle sobre quais papéis atuariam, tampouco terem o livre arbítrio de escolherem romper contratos, os profissionais não tinham identidade alguma.

Assim que assinavam seus nomes nos contratos, os artistas deixavam de existir, quase que literalmente. Isso aconteceu com Natalie Wood, Marilyn Monroe e Judy Gargland, por exemplo, mulheres que tiveram seus nomes alterados para se distanciaram de suas origens.

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Pinterest/Reprodução)

Rita Hayworth, famosa por interpretar Gilda no filme de 1946, nasceu Margarita Cansino, filha de pai espanhol e mãe irlandesa-americana. A atriz foi forçada a mudar seu nome para ter um apelo mais anglo-saxão, além de passar por uma transformação visual para eliminar traços de sua etnia, como o sotaque.

Mas questões étnicas não foram os únicos motivos pelos quais atores tiveram que mudar de nome. A polêmica Joan Crawford, nascida Lucille LeSueur, teve que mudar seu nome de batismo porque um executivo da MGM disse que seu sobrenome soava como “esgoto” (sewer em inglês).

Ofício para poucos

Shirley Temple jovem. (Fonte: Pinterest/Reprodução)Shirley Temple jovem. (Fonte: Pinterest/Reprodução)

Apesar do apelo visual que Hollywood sempre enalteceu em seus atores e atrizes, ter um rostinho bonito não era o suficiente. Em seu livro Child Star, a lendária Shirley Temple, vítima de décadas de abusos psicológicos e físicos desde sua estreia infantil na indústria, deixou isso bem claro.

Em 1930, a mãe de Temple ouviu que a jovem precisava de aulas de atuação para que pudesse "destravar" o potencial que havia nela, pois não podiam arriscar tudo por sua beleza e carisma naturais.

Esse processo de treinamento acontecia logo após a assinatura do contrato, como aconteceu com Ava Gardner, indicada ao Oscar, que ouviu que não podia atuar de um dos produtores que esteve em sua primeira audição. A estrela de Mogombo também foi submetida a diversas aulas de canto para se livrar de seu sotaque sulista e se enquadrar no padrão hollywoodiano de mulheres.

Vida falsa e danos psicológicos

Joan Crawford. (Fonte: Jornal do Dia/Reprodução)Joan Crawford. (Fonte: Jornal do Dia/Reprodução)

Apagar um nome, traços étnicos falados ou físicos era apenas o começo para o departamento de publicidade dos estúdios, que fizeram de tudo para inventar histórias da vida pregressa de suas estrelas.

Joan Crawford nasceu em uma vida cercada por miséria, mas a MGM a fez esconder seu passado dizendo à imprensa que veio de uma família de classe alta. O estúdio também disse que Garland comia demais, "como uma motorista de caminhão", toda a vez que ela inchava por conta das gravidezes que escondeu desde seus 19 anos, na tentativa de escapar da rede de abortos forçados ministrados pelos estúdios.

A MGM tomou todas as medidas necessárias para preservar a imagem virginal de suas atrizes, sendo elas casadas ou não. Ter uma vida própria não estava em seus contratos, então elas não poderiam reivindicar autonomia. Afinal, o público queria ver pessoas como Garland, a eterna Dorothy de O Mágico de Oz, segurando um ursinho de pelúcia e não um bebê. Para os empresários, filhos destruíam a carreira de uma estrela, principalmente das mulheres — visto que os homens poderiam simplesmente não declarar a paternidade.

Os traumas dos abortos não consentidos e as invenções destruíram o psicológico dessas mulheres, que também sofreram por quererem viver o personagem inventado para eles 24 horas, mas que tinham que enfrentar a própria verdade quando não havia nenhum tabloide por perto.

Vício e exaustão

(Fonte: Timeline/Reprodução)(Fonte: Timeline/Reprodução)

Entre 1930 e 1945, Hollywood produziu mais de 7.500 filmes em seus estúdios. E para conseguirem isso, os produtores levaram seus atores à exaustão física e emocional, já que não havia limite em seus contratos para as jornadas de trabalho diárias. 

Para enfrentar abatimento e desmaios em horas diante das câmeras, as estrelas recebiam um "banquete" de todos os tipos de drogas que os mantivessem energizados. Até a década de 1950, segundo o ex-médico da 20th Century Fox, Lee Siegel, todo ator estava usando algum tipo de droga para se manter funcionando.

(Fonte: Vanity Fair/Reprodução)(Fonte: Vanity Fair/Reprodução)

Garland foi um dos exemplos dessa exploração. Durante as gravações de O Mágico de Oz, ela só folgava um dia por semana após enfrentar turnos de 18 horas diárias de canto, dança e atuação. Para aguentar, a atriz foi entupida de cápsulas de anfetamina, conseguindo dormir apenas altamente medicada com tanta química em seu organismo.

Como consequência, a atriz morreu aos 47 anos, em decorrência de uma overdose de drogas.

Cercados

(Fonte: Vanity Fair/Reprodução)(Fonte: Vanity Fair/Reprodução)

Certamente o que contribuiu para a ruína de Garland — a primeira declarada por Hollywood — foi não poder contar com ninguém, nem mesmo com a própria mãe, que estava em conluio com os estúdios.

Assim como todas as outras, a estrela estava cercada por espiãs camufladas como assistentes pessoais exigidas pelos contratos para acompanhá-las por onde quer que fossem. Os contratados eram obrigados a fazerem relatórios sobre suas estrelas para repassar aos estúdios.

Os artistas não conseguiam fugir desses espiões, que eram motoristas particulares, garçons e até zeladores dos condomínios onde moravam. Os empresários se certificavam de cercá-los de pessoas compradas de tal forma que só lhes restava a mais pura solidão.

(Fonte: Judy Garland News/Reprodução)(Fonte: Judy Garland News/Reprodução)

Betty Asher, assistente de Garland, enganou a mulher até o último momento, quando a estrela descobriu que ela mantinha uma planilha detalhada de cada passo. "Lembro-me de chorar por dias depois de descobrir o que ela estava fazendo comigo", revelou Garland, em seu livro Get Happy: The Life of Judy Garland.

De fato, todas as estrelas que assinaram com Hollywood tiveram o que os magnatas prometeram: dinheiro, fama, glamour e a glória eterna. A maioria daqueles que viraram horas em estúdios se tornaram lendas do século passado e influências históricas na máquina do cinema.

Mas, infelizmente, eles tiveram sua ingenuidade explorada quando entraram em salas de empresários para assinarem contratos que mudariam suas vidas, para o bem ou para o mal.

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