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Linguagem inclusiva e neutra: entenda os diferentes pontos de vista

Uma discussão que tem ganhado destaque em diversos veículos e canais de comunicação é sobre o uso das linguagens inclusiva e neutra. Estas são formas de se expressar que têm como objetivo abranger todos os destinatários do discurso, seja lá qual for o gênero da pessoa.

Da mesma forma que a discussão tem adeptos, também há críticos que questionam a necessidade de se fazer tal adaptação no vocabulário. Existem diferenças importantes entre a linguagem inclusiva e a neutra. O nosso objetivo aqui é explicar o que significa cada uma delas e explicar os principais aspectos envolvidos na utilização de ambas.

Definindo cada tipo de linguagem

Existe diferenças entre a linguagem inclusiva e neutra. (Fonte: Pexels)Existe diferenças entre a linguagem inclusiva e a neutra. (Fonte: Pexels)

A linguagem inclusiva ou não sexista é uma forma de comunicação que buscar abranger todos os gêneros. Essa proposta utiliza artifícios que já existem na língua portuguesa para fazer isso, sem necessariamente alterar os vocábulos como os conhecemos. 

Trata-se da simples utilização de “todos” e “todas” ao iniciar um discurso, por exemplo; ou, ao se endereçar para um grupo infantil, falar “meninos” e “meninas” com o objetivo de que todas as crianças presentes se sintam parte do destino daquela mensagem; ou ainda a substituição de "bem-vindo" e "bem-vinda" por "boas-vindas".

Já a linguagem neutra, também chamada de não binária, embora tenha o mesmo objetivo da proposta inclusiva, propõe a adição de novas palavras para alcançar esse alvo ao considerar que algumas vezes não conseguimos encontrar os recursos necessários na própria língua. É o caso da utilização de pronomes como “elu”, “amigues” e "todes" (em adição a, respectivamente, "ele" e "ela", “amigos” e "amigas", “todos” e "todas").

Os principais defensores da linguagem não binária são os ativistas do movimento LGBTQIA+. De acordo com o grupo, a linguagem tradicional é apenas mais uma forma de perpetuar a desigualdade entre as pessoas, e essas mudanças ajudariam a diminuir esse impacto negativo.

Pontos de vista diferentes

A dificuldade de adaptação é um dos maiores desafios dessas linguagens. (Fonte: Pexels)A dificuldade de adaptação é um dos maiores desafios dessas linguagens. (Fonte: Pexels)

Ao apontarmos essas opiniões diferentes no uso das linguagens inclusiva e neutra, o nosso objetivo não é dizer o que é certo ou errado. Porém, o fato é que todos e todas (ou “todes”, para os adeptos da linguagem não binária) deveríamos estar buscando diminuir as desigualdades existentes em nossa sociedade. Não por conta de algum tipo de ideologia, mas porque isso seria o certo a se fazer.

Contudo, embora tenhamos tentado utilizar esses tipos de linguagem no parágrafo acima, este texto adotará o que é considerado como a norma-padrão na língua portuguesa. A discussão ainda é longa e a desses pontos de vista discordantes talvez seja apenas o primeiro passo para avançarmos e entendermos o propósito dessas propostas.

Linguagem inclusiva

Com base na definição de cada proposta, é fácil perceber que a linguagem inclusiva é muito mais fácil de adotar no discurso. A utilização de palavras que já fazem parte do nosso vocabulário torna o uso dessa linguagem uma forma clara de incentivar a inclusão de todos, mais especificamente o gênero feminino, que muitas vezes é excluído na forma como nos expressamos na língua portuguesa.

Isso não significa dizer necessariamente que o nosso idioma “é machista” – discussão que gera divisão até mesmo entre os linguistas. Porém, a nossa linguagem é reflexo da sociedade e principalmente do mensageiro, significando que o preconceito muitas vezes está exatamente na boca de quem fala.

Como desvantagem dessa linguagem, existe o fato de ela não abraçar totalmente os gêneros expressos na sociedade atual. A comunidade LGBTQIA+ não se sente representada ao utilizarmos os pronomes “todos” e “todas”, motivo pelo qual a linguagem inclusiva é limitada nesse sentido.

Linguagem neutra

Se por um lado a linguagem inclusiva não abarca todos os gêneros de uma determinada sociedade, a proposta neutra faz exatamente isso ao mudar a forma como algumas palavras são construídas. Essa é a principal vantagem na utilização desse formato de expressão, motivo pelo qual é o adotado e preferido das comunidades minoritárias.

Contudo, do ponto de vista linguístico, a linguagem não binária é a que oferece maiores desafios para a mudança, especialmente por conta da transformação de algumas palavras de uso comum. Ao se referir a uma pessoa que se considera de gênero neutro, você não deveria dizer “ele/ela” ou “dele/dela”, mas adotar o padrão estabelecido para essa linguagem.

Do ponto de vista técnico

Para enriquecer essa discussão, convidamos a especialista em Revisão e Produção Textual Juliana Rosado, revisora do time de Controle de Qualidade Textual da NZN, para falar sobre o tema. Elaboramos duas perguntas para ela responder. Confira-as a seguir.

Como a adoção dessas linguagens (inclusiva e neutra) pode impactar o uso da língua portuguesa?

As expressões não binárias evitam que algumas pessoas se sintam mal e excluídas, ela é como se fosse uma “prevenção”. Primeiramente, é preciso compreender o termo adotado, no meu caso utilizo “linguagem não binária e inclusiva”. Mas por que não só “linguagem neutra” ou apenas “linguagem inclusiva”?

De acordo com a especialista Raquel Freitag, "toda vez que qualquer pessoa abre a boca ela já diz quem ela é. Mesmo sem dizer explicitamente, ela dá pistas de onde vem, de qual a sua idade, do perfil social ao qual ela pertence. A linguagem neutra, portanto, não existe".

Então, seguindo a perspectiva de Freitag, o termo "neutro" não seria adequado, visto que a língua nunca é neutra. O que se propõe, na realidade, é uma comunicação que abranja todos, inclusive quem se identifica com o binarismo. Considerando isso, julgo “linguagem não binária e inclusiva” a expressão mais adequada a ser utilizada, pensando que queremos promover a inclusão de todas as pessoas.

Desse modo, pode-se afirmar que esse tipo de linguagem tem como objetivo principal desestabilizar a norma-padrão vigente, e não impor novas regras. Visto isso, há pluralidade nas maneiras como essa linguagem não binária pode ser construída, apresentando várias opções para “neutralizar” o discurso, e não somente uma forma. Há uma gama de possibilidades a serem incorporadas à língua com o intuito de minimizar a binaridade existente e contemplar mais diversidade na estrutura da língua portuguesa, fazendo as pessoas se sentirem incluídas nos discursos presentes em seu cotidiano. 

A língua portuguesa é machista?

A língua é uma construção histórica e social, portanto, um reflexo da nossa sociedade. Desse modo, afirmar que “a língua é excludente porque é machista” é um erro; afinal, a língua em si não é machista, inclusive se formos analisar a origem do português, nas raízes latinas, saberemos que a marcação de gênero em nossa língua na realidade é feminina. 

Nos primórdios, havia artigos neutro, masculino e feminino. No entanto, com o tempo, o neutro caiu em desuso, e isso aconteceu porque houve uma fusão entre masculino e neutro em nossa língua, por causa de semelhanças na estrutura morfossintática entre eles. Portanto: 

  • Todos (neutro)
  • Todas (feminino)
  • Todos (masculino)

Analisando esse exemplo fica claro que a marcação de gênero ali é feminina (com o “a”), deixando claro, consequentemente, que a língua em si não é machista. Porém, existem dois fatores atrelados à nossa língua: um deles é o que se chama de “falso neutro” e o outro é o fator social.

Alguns linguistas atestam que esse “neutro” do latim é falso, porque na verdade ele causa conflitos por ser muito similar ao masculino, o que acaba induzindo a uma confusão, gerando um reforço de estruturas patriarcais sociais na construção linguística. Um exemplo disso seria: quando falamos de profissionais da saúde de modo genérico, dizemos “médicos” (e não médicas); mas já, se vamos nos referir de modo geral a profissionais do ramo doméstico, usamos “empregadas” (e não empregados). 

Enfim, considerando esse contexto, para Freitag, a língua é um reflexo da nossa sociedade, então apesar de ela não ser machista em si, ela pode sim refletir esse traço. A língua é sempre um espelho da sociedade. Freitag questiona: “A pergunta que a gente tem que fazer é: a nossa sociedade é sexista? Se for, a língua vai refletir isso”. Inclusive, podemos aplicar essa linha de raciocínio a termos pejorativos, estes também revelam aspectos da nossa sociedade. Quando cuidamos para não usar expressões como criado-mudo, nega-maluca, judiação e denegrir, mostramos nosso posicionamento diante do racismo, por exemplo. 

Enfim, só precisamos ter consciência de que isso é um processo, ou seja, a sociedade muda e aí então a língua se modifica. Portanto, não podemos impor nada, para nenhum lado, mas sim entender que os seres humanos vão se desenvolvendo conforme suas necessidades e, nisso, podemos incluir com certeza as nuances da nossa língua. 

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