Julfest: quando o nazismo mudou o Natal para algo perturbador

Além de assassina e destrutiva, a ideologia nazista era extremamente autocentrada. Tudo acontecia a partir do que Adolf Hitler não gostava, alguns exemplos disso são grupos étnicos, minorias, a "mescla espúria" da linhagem alemã, a degradação histórica do país, a perda de identidade etc. Em meio a tudo isso, estava também uma das tradições mais antigas do mundo ocidental: o Natal.

A Alemanha se tornou um dos países conhecidos por mais amar a data, responsável por fundar o hábito de enfeitar árvores durante a época, em meados do século XVI, quando os glassblowers criaram ornamentos impressionantes para decoração.

Em uma nação em que o feriado natalino é algo enraizado na vida de todo o cidadão, bani-lo não era uma opção viável para os nazistas, visto que poderia acarretar uma onda de retaliação em massa. Portanto, a melhor maneira foi fazer uma reformulação da data.

O ódio do líder

(Fonte: Vice/Reprodução)(Fonte: Vice/Reprodução)

Hitler "jurou não descansar até que os judeus se espatifassem no chão" durante um discurso em Munique, no Natal de 1921, quando seus planos para se tornar um dos maiores genocidas do século ainda estavam sendo orquestrados. Foi nesse dia que ele alegou que os judeus eram os vilões do Natal e culpados por "quebrar o libertador mundial da cruz".

Porém, o homem também odiava que o Natal promovesse a paz entre todos os povos, inclusive os judeus, e acabava resultando em momentos de calmaria em meio a cenários sangrentos de guerra, como aconteceu durante a Trégua de Natal de 1914, na Primeira Guerra Mundial. Isso era exatamente o oposto do que ele pensava para o futuro da Alemanha, então precisava remodelar a data festiva.

(Fonte: Fast Company/Reprodução)(Fonte: Fast Company/Reprodução)

E, infelizmente, aconteceu de maneira mais fácil do que Hitler esperava. Isso porque, no início do século XX, havia grande tensão entre o comunismo, que condenava o Natal por ser a "personificação do capitalismo e do cabresto religioso", e os social-democratas, que achavam que a data ressaltava apenas a hipocrisia das pessoas prósperas que pregavam a caridade e boa vontade, enquanto os pobres lutavam para colocar comida na mesa.

A situação ficou tão ruim que houve pessoas ligando para cancelar o Natal, e foi nesse momento que Hitler interviu para dizer que isso não seria possível — seus Camisas Marrons saíram às ruas para espancar todos aqueles que insistissem no cancelamento —, mas que a proposta da data poderia ser alterada.

Matando o Natal

(Fonte: History/Reprodução)(Fonte: History/Reprodução)

Foi desse jeito que o purismo recaiu sobre o Natal, em uma tentativa de descristianizar a data e devolvê-la ao tempo da era pré-cristã e pagã. A temporada inteira ficou conhecida como Julfest, parte de uma festa chamada Rauchnacht (“Noite difícil” em alemão), uma volta ao primitivismo.

Os nazistas também tentaram transformar a data em um feriado que celebrava a história da origem da raça ariana, distanciando-se ainda mais da ideia do nascimento de Cristo, tornando-se uma espécie de celebração neopagã do solstício de inverno.

A propaganda deles explicou e insistiu que era assim que o povo alemão comemorava quando ainda eram "racialmente aceitáveis" antes de serem corrompidos pelas religiões modernas. Em um esforço para deixar claro que o Julfest era puramente germânico, os nazistas aproveitaram para promover o antissemitismo por meio de um boicote em massa a lojas, empresas e qualquer estabelecimento que fosse de origem judaica.

Portanto, tudo o que era conhecido como parte do Natal teve que ser abandonado. O presépio foi alterado com pais de cabelos loiros e olhos azuis olhando para um bebê igual a eles, que representava o ideal nazista de uma família perfeita. Os presentes foram substituídos por velas do Julfest a serem usadas na observância do novo feriado. A tão popular figura do Papai Noel na Alemanha foi repaginada, já que não podia ser excluída, para se transformar no deus nórdico Odin, em vez de São Nicolau.

(Fonte: The Washington Post/Reprodução)(Fonte: The Washington Post/Reprodução)

O braço direito de Hitler, Heinrich Himmler, foi encarregado de reescrever as canções de Natal para algo mais apropriado, ou seja, isso significava retirar referências religiosas — Jesus, por exemplo, foi substituído por "Salvador Fuhrer". A música suíça "Unto Us a Time Has Come" até hoje é cantada na versão nazista.

Símbolos e estrelas, uma parte importante da decoração nataliana, foram substituídas pela suástica, os relâmpagos da SS (retirados de um alfabeto pré-romano) e a roda do sol alemã, cooptada da mitologia nórdica e celta.

Como convenceram

(Fonte: The Mirror/Reprodução)(Fonte: The Mirror/Reprodução)

É provável que você esteja se perguntando se tudo isso deu certo e as pessoas compraram essa nova ideia de Natal. Conforme o professor Joe Perry, da Universidade da Georgia, é difícil dizer.

Em 1933, o Partido Nazista tinha mais de 2,3 milhões de afiliados, e a Liga Nacional Socialista das Mulheres (NSF) fez de tudo para que os alemães "engolissem" o Julfest. Contudo, os registros mostram que houve muita dúvida e bastante descontentamento na organização, enquanto as igrejas condenaram o feriado repaginado e ameaçaram excomungar qualquer um que tentasse celebrá-lo da maneira distorcida que a ideologia nazista propunha.

Por outro lado, existem vários relatórios da polícia secreta nazista que apontam o quão popular o Julfest foi entre a nação, afirmando que as famílias estavam contentes em celebrar um dia de maneira tradicional e "pura", ou seja, apenas pelo típico discurso nazista já é possível perceber que essa realidade foi muito bem editada para que o partido não deixasse nenhum rastro de fracasso.

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