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Movimento anticinto de segurança mobilizou os EUA em 1980

De acordo com um levantamento da Administração Nacional de Segurança Rodoviária (NHTSA, sigla em inglês) o uso de cinto de segurança em veículos de passageiros salvou cerca de 14.955 vidas em 2017 nos Estados Unidos. Atualmente, a taxa de uso nacional do equipamento está em 90,3%, conforme a pesquisa feita em 2020. Dos 22.215 ocupantes de veículos de passageiros mortos em 2019, cerca de 47% não estavam usando cintos de segurança.

No Brasil, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) registrou 7.921 acidentes em 2019, resultando em 2 mil pessoas feridas e 98 mortas devido à falta de segurança. A pesquisa do Ministério da Saúde, feita em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou que apenas 50,2% da população afirma sempre usar o cinto quando está no banco traseiro de um veículo, sendo que os entrevistados mostraram mais consciência quando estão na frente do carro, em que 79,4% das pessoas com 18 anos ou mais dizem sempre usar o cinto de segurança.

Há 60 anos, o item já salvou mais de um milhão de pessoas. No entanto, na época de sua criação, em 1959, ele recebeu forte oposição.

A criação

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Pinterest/Reprodução)

Foi no final dos anos 1800 que Sir George Cayley (1773-1857, um rico proprietário de terras interessado nos princípios do voo, inventou uma espécie de planador com cinto de segurança para manter seus pilotos nele. Mas ambas as invenções não foram muito longe.

Já em 1885, Edward J. Claghorn (1856–1936), em Nova York, desenvolveu o primeiro cinto de segurança veicular patenteado nos EUA, visando proteger seus turistas ao prendê-los a um objeto fixo. O equipamento era muito parecido com os cintos de alpinismo de hoje.

(Fonte: Philkoatse/Reprodução)(Fonte: Philkoatse/Reprodução)

No início do século XIX, com a introdução dos primeiros veículos no país, alguns motoristas desenvolveram formas rudimentares de cintos de segurança, porém não como medida de proteção, mas para evitar que caíssem do automóvel ao atravessarem terrenos acidentados.

No final da década de 1920 e início de 1930, a produção de carros já era feita em massa pelos EUA, e isso resultou em uma estatística de 30 mil pessoas morrendo a cada ano, por não fazerem o uso de cintos.

Foi um grupo de médicos, horrorizados com o desperdício de vida que o avanço tecnológico produzia, que cobrou das fabricantes de automóveis o equipamento de segurança — após testarem a sua eficácia nos próprios carros.

O complô da oposição

(Fonte: Business Insider/Reprodução)(Fonte: Business Insider/Reprodução)

A oposição veio imediatamente. A Nash Motors foi a primeira fabricante a instalar cintos de fábrica na estrutura dos carros. Milhares de clientes arrancaram ou os cortaram com lâminas de barbear, revoltados em serem obrigados a usarem algo “a força”.

Só em 1949, dos 48 mil veículos produzidos, apenas mil pessoas usavam o equipamento rotineiramente. No ano seguinte, a opção foi removida porque o público não os aceitava, alegando serem um incômodo, como relatou Meade F. Moore, vice-presidente de pesquisa e engenharia automotiva.  

A década de 1980 foi o momento de maior oposição, surgindo movimentos anticinto de segurança pelos EUA, como reposta direta à legislação que começou a ser introduzida. O prefeito do Michigan, David Hollister, recebeu milhares de cartas de reclamações em seu gabinete, uma delas comparando-o a Hitler por tentar aprovar um projeto de lei que multava os motoristas que não usavam o equipamento de segurança.

(Fonte; Auto/Reprodução)(Fonte: Auto/Reprodução)

As montadoras de carros alimentaram a disputa pelos cintos de segurança, mais preocupadas com os custos de produção em espiral atingindo suas margens de lucro, enquanto gerentes de Relações Públicas acreditavam que a inclusão do equipamento em projetos de automóveis passaria a imagem de que o automóvel fosse inseguro — resultando em menos vendas.

Com as empresas ao lado do movimento anticinto de segurança, foi feito de tudo para pressionar os legisladores a permitirem que os carros continuassem sendo fabricados sem o equipamento. A mídia foi assolada por relatos falsos e estatísticas de que os cintos poderiam causar mais mortes do que salvar vidas, como, por exemplo, se o carro pegasse fogo após uma colisão.

Entretanto, apesar desse esforço descomunal de ambos os lados da sociedade, os especialistas em segurança no trânsito venceram, impondo a lei em todos os estados dos EUA, exceto em New Hampshire.

A pandemia causada pelo coronavírus, iniciada no primeiro semestre de 2020, serviu para mostrar como as pessoas reagem emocionalmente a medidas que “usurpam” sua liberdade — ainda que sejam para salvar vidas.

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