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Practice Babies: quando o governo 'ensinou' mulheres a serem mães

É bizarro imaginar que o período que marcou o fim da Primeira Guerra Mundial foi o momento em que o governo dos Estados Unidos mais panfletou que as mulheres seriam mais valorizadas na sociedade. Eles externaram isso propondo programas que estimulavam o que todos esperavam do poderio feminino: donas de casa e mães excepcionais.

E, para isso, as mulheres foram encaminhadas para faculdades para se formarem em como ser mães, em um período que nem sequer a medicina ousava estudar seus corpos para melhorar os cuidados de saúde. Ainda assim, a confiança do país na ciência e pesquisa incentivou esse tipo de programa.

Foi assim que nasceu o curso “bebês de treino”, em vigor entre 1919 e 1969, como parte do Departamento de Economia Doméstica de 50 universidades do território americano, destinado a ensinar “com maestria” como mulheres deveriam administrar uma casa com eficiência, e bebês órfãos “alugados” de orfanatos permitiram que as jovens aprimorassem suas habilidades na criação de seu próprio filho no futuro.

O uso na prática                        

(Fonte: NPR/Reprodução)(Fonte: NPR/Reprodução)

As universidades emprestavam órfãos como voluntários para viverem na escola e serem cobaias dessas mães e mulheres em formação. No romance The Irresistible Henry House, a autora Lisa Grunwald disse que descobriu a prática, que usou como premissa para seu romance enquanto trabalhava em uma antologia de cartas escritas por mulheres americanas. Lá ela encontrou um menino chamado Bobby, cujo sobrenome era Domecon (abreviação para Economia Doméstica), cuidado por cerca de uma dúzia de mulheres que se revezaram como sua mãe na Universidade Cornell, em Nova York.

Os professores do curso exigiam que os bebês viessem o mais jovem possível dos orfanatos, para que as mães, que se revezavam em turno para cuidar deles, pudessem extrair o mais puro aprendizado. Como projetos de pesquisa que as crianças eram, as alunas poderiam ter um filho por semana ou dez.

(Fonte: History of Yesterday/Reprodução)(Fonte: History of Yesterday/Reprodução)

“Quando li sobre isso pela primeira vez, achei meio estranho e um pouco assustador”, disse Grunwald, em entrevista à NPR. “Mas, na verdade, na época em que isso acontecia, tudo era considerado uma oportunidade possível para uma abordagem científica, e o cuidado infantil não era exceção”.

Apesar do tom bizarramente típico de um período de pura experimentação humana, existem poucas evidências de controvérsias ao longo de anos da prática. No entanto, isso não impediu que as pessoas se chocassem, como um jornalista da revista Time, que escreveu um artigo em 1954 criticando o uso das crianças, definindo-o como “perturbador”.

O que dizem os especialistas

(Fonte: Porosenka Net/Reprodução)(Fonte: Porosenka Net/Reprodução)

Mesmo que fisicamente bem cuidadas, as crianças não deixaram de sofrer com sequelas de traumas gerados no psicológico em formação. Aprofundando-se em sua pesquisa, Grunwald descobriu por psiquiatras que pode ser que os bebês tenham desenvolvido algum transtorno de apego, caracterizado pela dificuldade em formar vínculos sociais, devido à falta dele durante os primeiros anos de vida.

Não existem documentos acusando sobre como foi o futuro desses bebês, porque na época a adoção era um processo extremamente anônimo. Muitos pais quiseram adotar crianças Domecon por sua criação através de métodos científicos, mas parece que não existe nenhuma maneira de rastreá-los.

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