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As polêmicas e injustiças de Clara Bow, a primeira 'it girl' de Hollywood

A história da atriz Clara Bow começa como um perfeito sonho americano: a menina pobre, de infância difícil, que alcançou a riqueza e o estrelato em Hollywood. Mas, em meio a polêmicas e problemas de saúde mental, a promissora carreira da "it girl" original acabaria antes de seus 30 anos, relegando-a ao ostracismo.

Seus trabalhos representando garotas alegres e livres fizeram de Clara Bow o estereótipo da "melindrosa" dos loucos anos 1920 — que tanto vimos em filmes e séries nas décadas seguintes. Em 1927, ela estrelou a comédia romântica It — "isso", em português. O título representava uma qualidade única e inexplicável de algumas pessoas, que as tornavam irresistíveis. A partir disso surgiu o termo "it girl", utilizado até hoje, quase um século depois do filme.

O impacto de Clara Bow na indústria do entretenimento voltou a ser assunto em 2024, depois que a cantora norte-americana Taylor Swift anunciou uma música com seu nome no álbum The Tortured Poets Department. A seguir, nós contamos mais sobre a história de Clara Bow.

A infância difícil de Clara Bow

(Fonte: IMDB/Reprodução)(Fonte: IMDB/Reprodução)

Clara Gordon Bow nasceu em 1905, filha de Robert e Sarah Bow. O casal já tinha tentado ter filhos duas vezes, mas as duas crianças morreram precocemente. Além disso, Robert e Sarah eram muito pobres e sofriam com problemas com alcoolismo e esquizofrenia, respectivamente.

Por isso, a pequena Clara recebeu pouco cuidado durante sua infância. "Eu nunca tive roupas e, muitas vezes, nem tinha o que comer", contou a atriz em entrevistas. 

Seu único refúgio eram os filmes, que a faziam sonhar com uma carreira de atriz, ainda que sua mãe afirmasse que preferia ver a filha morta do que num filme. Em um de seus episódios mais graves de esquizofrenia, Sarah Bow ameaçou a filha com uma faca — o que fez Robert enviá-la para um hospital psiquiátrico, onde ficou internada até sua morte. 

A luta por um lugar ao sol em Hollywood

(Fonte: Getty Images)(Fonte: Getty Images)

Diferente da mãe, o pai de Clara Bow apoiava o sonho da filha de ser atriz. Com isso, a jovem de 16 anos conseguiu ganhar um concurso de beleza de uma revista. Em 1921, ela largou seus estudos e começou a batalhar por uma carreira no cinema. 

Mas o concurso não abriu todas as portas de Hollywood, como Clara esperava. Ela conta que sempre havia algo de errado com ela. Sua primeira grande chance só surgiu em 1922, quando o diretor Elmer Clifton a selecionou para o romance Down to the Sea in Ships. Clara interpretou uma garota que fingia ser um rapaz — e todos disseram que ela filmava muito bem. 

Nos anos seguintes, ela foi ganhando papéis maiores até se tornar uma grande estrela: só em 1924, ela fez oito filmes mudos, tornando-se um dos primeiros símbolos sexuais do cinema. 

Nos filmes, ela geralmente interpretava mocinhas joviais e espirituosas, que flertavam com os homens enquanto esbanjava carisma. Era o estereótipo da "melindrosa", dos loucos anos 1920, que marcaria essa geração pelas décadas seguintes. Os cabelos ruivos, curtos e rebeldes, e o sorriso inconfundível, fizeram o rosto de Clara Bow ser um dos mais conhecidos da época. 

A "it girl" original — que era julgada por todos

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

O papel da carreira de Clara Bow foi vivendo Betty Lou em It, lançado originalmente no Brasil como O Não Sei Quê das Mulheres. Ela interpretava a carismática funcionária de uma loja de departamentos que seduzia o chefe com seu jeito divertido e moderno. 

A partir disso, surgiu a expressão "it girl" — uma mulher que chama a atenção apenas com seu carisma —, sendo Clara Bow o primeiro exemplo desse fenômeno. 

Mas enquanto seduzia as plateias com seus personagens sensuais e espirituosos, Clara Bow era mal vista em Hollywood pelos mesmos motivos. Mesmo no auge do sucesso, ela não era amiga de outras estrelas da época, como Marion Davies ou Mary Pickford. Ela dizia que seus amigos eram as pessoas que ela conheceu antes de pagar imposto de renda. 

Segundo a atriz Lina Basquette, as outras estrelas "olhavam torto" para Clara Bow porque ela não escondia sua vida amorosa e sexual. A realidade é que ela não fazia nada que os outros não fizessem: seu crime era não ter vergonha disso. Além disso, suas origens humildes eram muito diferentes das de seus colegas. "Eu sou uma grande aberração porque eu sou eu mesma", afirmou ela.

Clara Bow teve cinco noivados em menos de cinco anos. Rompeu todos e falou abertamente sobre isso na mídia. Ela também não escondia seu gosto por festas, apostas, bebedeiras — e outras atividades inadmissíveis para uma mulher de sua época.

Quando a Paramount lhe ofereceu um contrato fixo para estrelar filmes, a atriz negociou para que ele não incluísse uma cláusula de moral. Com o tempo, esse tipo de polêmica começou a chamar mais atenção do que o desempenho de Clara Bow nas telas. 

Ela atraía enormes plateias para o cinema e era uma atriz competente: ela esteve em Wings, o primeiro ganhador do Oscar de Melhor Filme, inclusive. Mesmo assim, suas origens humildes e sua atitude livre fizeram com que ela nunca fosse levada a sério.

O fim precoce de uma carreira brilhante

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

Diferente do que muitas pessoas pensam, a carreira de Clara Bow não acabou com a transição do cinema mudo para o falado. Na verdade, Bow fez vários "talkies" (filmes falados) de sucesso na virada da década de 1920 para 1930. 

O verdadeiro problema foi sua saúde mental, que começou a ruir com o peso de sua fama — e com a esquizofrenia herdada de sua mãe. Clara Bow estrelou seu último filme em 1933, aos 28 anos, e se casou com o ator Rex Bell. 

Os dois tiveram uma vida relativamente tranquila na zona rural pelas décadas seguintes, tendo dois filhos. O maior problema continuou sendo a saúde mental de Clara, que chegou a atentar contra a própria vida quando seu marido voltou à vida pública nos anos 1940. 

Clara Bow nunca mais voltou às telonas até sua morte, em 1965, aos 60 anos. Mas seu nome ficou imortalizado nas lembranças dos anos 1920, no fenômeno das "it girls" e, a partir de 2024, também na música de Taylor Swift.

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