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Como a sífilis fez a Europa culpar a América pela doença no século XVI

No século XIV, cerca de um terço da população europeia foi devastada pela peste bubônica e, apesar de ter conseguido se recuperar tempos depois e reerguer parte da sociedade, as consequências logo surgiram depois com a confirmação do aparecimento de novas doenças. Foi então que, em pouco menos de 100 anos de relativa paz, o mundo voltou a viver tensões relacionadas à saúde pública por causa do contágio por infecções sexualmente transmissíveis (IST), que se "aproveitaram" da euforia social para se espalhar rapidamente pelo planeta.

Sem registros em livros ou conhecimento armazenado na mente dos intelectuais, a sífilis foi um objeto de medo e pavor em parte da Europa. Reis e rainhas, príncipes e princesas, maltrapilhos de bordéis e todos os tipos de grupo em diversas castas sociais passaram a temê-la, ao mesmo tempo que procuravam culpados para responsabilizar pelo iminente caos social que mais uma vez se aprofundava no continente. Veio da França? Da Itália? Por enquanto essa origem pouco importava, pois a única certeza que o povo tinha era de que a IST era contraída pelo ato sexual.

Castigo divino e a relação com os deuses

Antes de ser conhecida como sífilis, o mal foi intitulado de "doença venérea" por um médico francês, fazendo referência à deusa romana do amor, Vênus. Sem estar vinculada a uma época do ano ou à hierarquia social, ela oferecia os mesmos riscos para todas as pessoas que praticassem atos sexuais com ou sem frequência, causando dores terríveis nos ossos, que surgiam pouco tempo após a contração. Seria então uma punição divina pela suposta libertinagem e pela prática de sexo ilícito? Alguns diriam que sim.

(Fonte: Getty Images / Reprodução)(Fonte: Getty Images / Reprodução)

Enquanto médicos da época acreditavam que a sífilis era uma punição pelos pecados cometidos pela sociedade, astrólogos a viam como causa de dois eclipses do Sol e da confluência de Saturno e Marte. Isso acabaria, então, gerando um alinhamento entre estrelas e a consequente contaminação da terra, que deteriorava o corpo humano por meio de partículas venenosas que se misturavam ao ar.

O primeiro remédio para a doença teria surgido décadas depois, quando o mercúrio foi substituído por troncos de arbustos guáiaco, encontrados no Haiti, que, ao serem misturados com líquidos 2 vezes ao dia, forneciam recuperação em até 1 mês de tratamento. Porém, a hereditariedade da IST e sua alta transmissibilidade resultou em uma verdadeira corrida contra a cura, e os americanos entraram na história ao sofrerem graves acusações de europeus.

América vs. Europa: a culpa foi de alguém?

Na época, acreditava-se que a sífilis chegou à Europa junto dos navios de Cristóvão Colombo, que havia retornado em 1504 para a Espanha sob pedidos da rainha Isabel, trazendo pedaços de ouro, pérolas, joias dos nativos e, principalmente, os marinheiros e parte do exército. Assim, após anos de expedição, os homens do navegador genovês teriam aproveitado seus dias em bordéis e festejos, tornando-se potenciais encarregados de espalhar a doença pela região.

(Fonte: Getty Images / Reprodução)(Fonte: Getty Images / Reprodução)

Revoltados, médicos americanos se empenharam em desmistificar a lenda contada pelos rivais do velho continente e afirmaram que franceses aliados do rei Carlos VIII não apenas espalharam a bactéria pelos países vizinhos, mas também desenvolveram mutantes resistentes e com novas propriedades, dificultando o combate e aumentando a taxa de infecção. Estima-se que quase 1 milhão de pessoas foram infectadas com a sífilis.

Felizmente, especialistas descobriram, cerca de 4 séculos depois, o 1° tratamento efetivo do mal e a identificação da bactéria, que, ao lado dos estudos sobre a penicilina, resolveram definitivamente o problema de uma possível epidemia, com a chegada de uma cura definitiva.

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