Zoológicos humanos: o retrato do racismo no século XIX

Também foi usado o termo “exposições etnológicas” como um eufemismo para o que realmente era: um zoológico de pessoas. Mas não qualquer pessoa, o espaço era destinado apenas para aquelas consideradas etnicamente diferentes da raça predominante, ou seja, branca.

Ao longo do século XIX e XX, essas exibições públicas de pessoas se tornaram cada vez mais comuns e frequentes quando os cientistas — e também os oportunistas — perceberam que a sociedade estava despertando “um notável interesse” por outras culturas. No entanto, essa curiosidade não era em nada educacional, pois surgiu apenas para demonstrar uma questão de superioridade ocidental contra aqueles que pertenciam a um mundo ainda “bárbaro”, como os africanos.

O conceito dos zoológicos humanos foi impulsionado pela promoção dos "freak shows" que acontecia na América e na Europa, popularizado por P.T. Barnum, que arrebanhou todos os tipos de “rejeitados sociais”, como pessoas com raridades biológicas, para lucrar com isso ao apresentá-las como animais em cima de palcos, por trás de grades ou redomas de vidro.

Mas não se engane, os zoológicos étnicos conseguiram ser ainda mais doentios.

Entretenimento de “gente do bem”

(Fonte: Twitter/Reprodução)(Fonte: Twitter/Reprodução)

Foi Carl Hegebeck (1844-1913) que criou o primeiro zoológico moderno, bem como o humano, tendo como inspiração exibições públicas de pessoas que aconteciam desde o século XV. Quando Cristóvão Colombo embarcou nativos americanos para a Europa, eles desfilaram pelas ruas das grandes cidades espanholas, como Sevilha e Barcelona, como verdadeiros animais de circo, tão “exóticos” e “abomináveis”.

A partir daquele momento, não precisou de muito tempo para que se naturalizasse o gosto em ver “esse tipo de gente” diferente em feiras feitas em cidades europeias que se diziam muito orgulhosas de seu “pensamento moderno”. Em Bruxelas, Londres e Hamburgo, os zoológicos humanos panfletaram pessoas naturais do Egito, da Coreia e de todas as partes da África.

(Fonte: CBC/Reprodução)(Fonte: CBC/Reprodução)

Esses zoológicos conseguiram ser ainda mais cruéis e abusivos que os shows de aberrações que, ao menos, pagavam seus “contratados” e proporcionavam um ambiente onde eles se sentiam minimamente acolhidos — ainda que de maneira deturbada. Nos zoológicos humanos não teve nada disso.

As exibições colocaram pessoas completamente saudáveis, cujo único “defeito” era ser de uma raça diferente, atrás de grades sem ganhar absolutamente nada, deixadas para morrer à míngua após anos de exploração, de doenças ou de causas naturais.

Vida roubada

(Fonte: History Collection/Reprodução)(Fonte: History Collection/Reprodução)

Enquanto isso, a indústria de exibição de pessoas apenas aumentou, principalmente na segunda metade do século XIX, quando os zoológicos humanos já eram populares nas principais capitais europeias, atraindo regularmente um público de 200 a 300 mil visitantes por ano. Na Paris de 1877, por exemplo, famosa por apresentar povos núbios e inuítes, chegou a receber mais de 1 milhão de espectadores.

Em 1889, a Feira Mundial de Paris recebeu mais de 28 milhões de visitantes para apreciar a exposição mais famosa: a “aldeia negra”, que exibia 400 indígenas de várias colônias francesas, divididos em seis pequenas áreas onde viviam, dormiam e trabalhavam como qualquer um. No entanto, para os espectadores, eles viam apenas a diferença na forma de viver entre um “civilizado” e um “selvagem”.

O século XX também prosperou com as exibições etnológicas que, dessa vez, levaram as atrações para um próximo nível ao mostrar humanos seminus em gaiolas, como aconteceu nas Exposições Coloniais organizadas em Marselha, entre 1906 e 1922. Quando foi encerrada, em 1931, a feira humana havia atraído 34 milhões de pessoas.

Apesar de a Europa ter sido o lar para esse tipo cruel e bizarro de prática, os Estados Unidos foram o responsável por deter o título do maior zoológico humano do mundo. Inaugurado em 1904, na Feira Mundial de St. Louis, a Exposição das Filipinas abrigou mais de mil filipinos de diferentes tribos, e a área onde foram confinados tinha mais de 130 edifícios.

(Fonte: Onedio/Reprodução)(Fonte: Onedio/Reprodução)

Anunciada como “o lugar menos civilizado” de todo o vilarejo, a Vila Igarot foi a exposição que atraiu mais visitantes, porque apresentava nativos seminus que recebiam cães para cozinhar e comer diariamente. Também foi oferecido para o expectador cerimônias e danças para sua diversão durante o “passeio”.

As consequências desse tipo de entretenimento foram extensas e, por vezes, irreversíveis, tanto para quem foi submetido a elas quanto para a própria construção do pensamento social — ainda mais em um país tradicionalmente preconceituoso como os EUA.

Um exemplo disso foi o caso do congolês Ota Benga, exibido na feira americana como um canibal devido a seus dentes afiados. Depois que o zoológico terminou, o homem ainda foi vendido, mantido em uma gaiola com macacos em um zoológico do Bronx, e acabou se suicidando quando liberto por não saber como se adaptar ao novo ambiente.

No final das contas, os brancos e ocidentais, demonstrando sempre seu complexo de superioridade, foram os únicos que se beneficiaram dos zoológicos humanos. E, quando esse tipo de atração deixou de ser novidade, não apenas eles descartaram essas pessoas para serem mastigadas e cuspidas pela sociedade, como também chafurdaram e destruíram a herança histórica de cada um deles em um apagamento sistemático de suas origens.

Você sabia que o Mega Curioso está no Instagram, Facebook e no Twitter? Siga-nos por lá.