Seja o primeiro a compartilhar

Crise dos refugiados: o deslocamento massivo é um problema antigo

Desde que foi proclamada a guerra da Rússia contra a Ucrânia, na quinta-feira de 24 de fevereiro de 2022, a Organização das Nações Unidas (ONU) informou que quase 12,8 milhões de pessoas foram deslocadas das áreas ucranianas desde que as tropas russas lançaram seu ataque.

Em 2018, os dados do ACNUR indicaram que cerca de 5,4 milhões de pessoas foram deslocadas internamente em seus países devido a conflitos e violência, e isso é só um dos fatores que promovem esse tipo de migração. Sendo que, em meados de 2021, 84 milhões foram os números de deslocados, e 26,6 milhões de refugiados devido a fatores como mudanças climáticas que destroem meios de subsistência, poluição ambiental, conflitos violentos, desastres naturais e reféns da globalização também são fatores que contribuem para o deslocamento massivo das pessoas.

O início de uma crise

(Fonte: Time/Reprodução)(Fonte: Time/Reprodução)

Ainda que os refugiados já existissem no século XVII, por exemplo, quando mais de 300 mil huguenotes — religiosos protestantes franceses — começaram a deixar o país devido às perseguições nas guerras religiosas; e o colonialismo tenha deslocado um grande número de habitantes —, foram os fenômenos do século XX que deram origem à crise do refugiado moderno global em diferentes panos de fundo.

A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa movimentaram milhões de pessoas com a "desmistura" étnico-religiosa da Grécia e Turquia, enquanto o Genocídio Armênio feito pelo governo turco contribuiu para que milhares de sobreviventes deixassem o país, fugindo do massacre. A essa altura, os países já encorajavam a discriminação dos refugiados, e esse sentimento piorou ainda mais com a era da Segunda Guerra Mundial.

Com uma quantidade imensa de refugiados se infiltrando pela fronteira dos Estados Unidos, em sua maioria judeus, em 25 de junho de 1948, o então presidente americano Harry S. Truman assinou a Lei de Pessoas Deslocadas, que serviu apenas para aumentar o sentimento de discriminação com suas medidas seletivas e instáveis quando 250 mil pessoas chegaram da Europa como resultado da guerra.

(Fonte: Los Angeles Times/Reprodução)(Fonte: Los Angeles Times/Reprodução)

Após esse evento, o século XXI presenciou sua primeira crise de refugiados, em 15 de março de 2011, como consequência da guerra civil da Síria. Segundo a Concern Worldwide Us Organization, estima-se que mais de 25% do total da população global de refugiados faça parte da diáspora global após a crise síria de 10 anos. Só em 2021, cerca de 6,7 milhões de sírios buscaram refúgio em algum país, sendo Líbano, Jordânia, Iraque, Egito e Turquia os mais comuns.

Desde 1948, os países da Europa se tornaram o foco não só da história dos refugiados, quanto do destino deles, desde que a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria empurraram 40 milhões de pessoas para apatridia, e os EUA e outras nações dificultaram a entrada de deslocados e migrantes no país.

A penúria de um problema

(Fonte: National Geographic/Reprodução)(Fonte: National Geographic/Reprodução)

Muito embora seja comum a imagem de refugiados tentando forçar entrada em outros países, muitos deles continuam vivendo em sua terra natal, obrigados a coexistir com os problemas que os forçaram de onde haviam se estabelecido, denominados pelas agências humanitárias como "deslocados internos".

Os números do Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno indicam que cerca de 59,1 milhões foram vítimas de deslocamento interno no final de 2021, seja por guerras ou desastres naturais — os maiores fatores na criação de refugiados. Contudo, essa taxa aumentou vertiginosamente com a eclosão da guerra da Rússia na Ucrânia, com quase 8 milhões de pessoas (20% da população do país) deslocada internamente desde maio de 2022.

Ainda que seus governos nacionais sejam responsáveis pelos refugiados internos, na concessão de direitos igualitários e proteção, não é o que acontece na prática. A condição acaba sendo tão igual quanto daqueles que embarcam na jornada de deixar sua nação de origem. A começar que eles sofrem de problemas similares, como a perda ou separação de familiares, bem como de bens, propriedades e documentação importantes que limitam seu acesso aos serviços públicos. Tudo o que é deixado para trás, por vezes, não é recuperado, ou se existe a remota possibilidade, a compensação pode levar anos para chegar.

Tendo que lutar contra o trauma e a depressão, essas pessoas são marginalizadas por outros governos e intituladas como vilãs por tentarem se refugiar em outras terras ou países, em vez do verdadeiro título de vítimas.

(Fonte: TRT World/Reprodução)(Fonte: TRT World/Reprodução)

A vulnerabilidade da condição facilita, por exemplo, a promoção do abuso sexual e estupro sistemático das mulheres, igual torna as crianças mais suscetíveis ao recrutamento pelas Forças Armadas. Esses grupos minoritários, que incluem idosos e deficientes, sofrem mais discriminação no momento de prestação de assistência do que os homens fortes, que recebem, pelo menos inicialmente, mais comida do que os demais por serem considerados "valiosos".

Em compensação, no campo de refugiados, todos costumam compartilhar do mesmo tipo de inferno, que inclui as péssimas condições sanitárias em todas as escalas, desde fornecimento de água até manutenção do descarte de dejetos. Além disso, eles precisam lidar com a falta de roupas e produtos de higiene e uso pessoal.

Em paralelo a todo esse caos, os especialistas tentam também conscientizar a mídia global de que a crise dos refugiados não se resume apenas aos conflitos e guerras, mas também aos desastres naturais. Conforme o artigo da National Geographic, a consequência das mudanças climáticas causadas ou não pelo homem podem, até 2050, causar o deslocamento de cerca de 200 milhões de pessoas.

E as pesquisas apontam que, muito em breve, a crise de refugiados ambientais pode se sobrepôr ao problema causado pela guerra, à medida que o colapso climático se instala no mundo.

Você sabia que o Mega Curioso está no Instagram, Facebook e no Twitter? Siga-nos por lá.