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Como o cadáver de Abraham Lincoln mudou a indústria funerária

Na noite em que o ator John Wilkes Booth abriu fogo contra o 16º presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln, no Ford Theatre, em Washington, em 15 de abril de 1865, — o destino do país mudou para sempre.

O relacionamento entre os estados do norte e do sul, em meio à Guerra Civil, foi prejudicado, aumentando mais o ódio do norte em relação ao sul, dando mais liberdade aos republicanos extremistas para puni-los. Além disso, colocou Andrew Johnson no comando, que era conhecido por ter vontade de punir o sul e sustentar um relacionamento ruim com os congressistas.

A morte do presidente não parou de fazer história nem mesmo enquanto seu corpo era preparado para ser enterrado, porque foram os métodos usados nele que revolucionaram a indústria funerária.

O problema da morte

(Fonte: John Banks Civil War Blog/Reprodução)(Fonte: John Banks Civil War Blog/Reprodução)

Até 1861, nos EUA, as pessoas valorizavam demais uma “boa morte”, ou seja, morrer no lar, entre amigos e familiares, e com a consciência cristã limpa. O cadáver era deitado na cama, vestido com roupas novas, e cercado por velas para atenuar o cheiro de decomposição.

Esse momento era considerado crucial, tanto para os vivos quanto para os mortos, pois era feita a remissão dos pecados de ambos, os pedidos de aconselhamento e o último adeus para que a alma pudesse fazer uma transição tranquila para o Além.

O velório acontecia até que o corpo começasse a cheirar mal — o que não demorava muito —, então um carpinteiro local elaborava um caixão simples de pinho para transferir o cadáver. Depois, os enlutados se reuniam no cemitério ou quintal da casa para algumas palavras finais antes que o caixão fosse enterrado, sem lápide, flores ou qualquer tipo de item que compõe o funeral moderno.

(Fonte: Cabinet of Curiosities/Reprodução)(Fonte: Cabinet of Curiosities/Reprodução)

Assim aconteceu até a eclosão da Guerra Civil, que afetou a cerimônia para sempre, quando as famílias não conseguiram mais velar, por vezes nem enterrar, seus mortos, que eram abatidos e deixados para trás no campo de guerra. Até que fossem recolhidos, muitos já haviam se decompostos, rolados para valas comuns ou cobertos com terra das trincheiras.

As famílias ricas, únicas que podiam pagar muito para recuperação de um soldado falecido, até conseguiram que os corpos fossem devolvidos, mas não em um estado bom, visto que o calor e umidade, em uma época em que não havia refrigeração, os tornou uma bagunça.

Quanto aos pobres, a maioria não conseguia nem localizar, quanto mais identificar seus mortos, e, quando isso acontecia, os esforços para enviá-lo para casa falhavam. Em Connecticut, por exemplo, trens transportaram os mortos até a cidade em um evento que lotou as várias estações ferroviárias, imediatamente transformando um dos aspectos do funeral, antes um assunto privado, em algo público.

Com isso, foi também associado a angústia, tristeza dos corpos arruinados, o estresse e todos os sentimentos que expulsaram os tradicionais métodos do velório. Contaminado por todas as agruras da guerra, um funeral passou a ser dolorido e cansativo, não tendo mais nenhuma relação com um momento de despedida.

O problema do corpo

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Pinterest/Reprodução)

Em 1838, o francês Jean Gannal havia publicado o livro Histórias do Embalsamamento, descrevendo como o processo conseguia preservar um pouco do corpo ao substituir o sangue por um conservante. Há 2600 a.C., os egípcios antigos já faziam isso com os corpos de seus falecidos, removendo os órgãos, fluídos, e os substituindo com materiais naturais para conservá-los.

O livro de Gannal se tornou um sucesso entre o poderio médico americano, que começou a aplicar a técnica descrita de maneira rudimentar quando os cadáveres dos soldados começaram a chegar. Eles substituíram o sangue por arsênico, mercúrio e, mais tarde, por formaldeído, um produto considerado cancerígeno.

Os oportunistas vieram na esteira da grande demanda exigida pelo conflito, montando tendas improvisadas ao lado dos campos de batalha. Estima-se que dos 600 mil que morreram na guerra, apenas 40 mil foram embalsamados, dos quais tiveram resultados imprevisíveis, visto que esses “açougueiros” que possuíam pouco ou quase nenhum conhecimento do que estavam fazendo, tomaram a dianteira da proposta.

O Departamento de Guerra chegou a emitir a Ordem Geral 39, visando garantir que apenas embalsamadores licenciados oferecessem seus serviços aos enlutados, tanto pobres quanto ricos.

Erguendo uma indústria

(Fonte: Talk Death/Reprodução)(Fonte: Talk Death/Reprodução)

Após ser atestada a morte de Abraham Lincoln naquele fatídico abril de 1865, era necessário que seu corpo resistisse à viagem de Washington para Springfield para o sepultamento, principalmente porque deveria fazer paradas para que milhões de pessoas pudessem e prestar suas condolências.

Para manter o cadáver apresentável por tanto tempo, o cirurgião Thomas Holmes, conhecido como o "pai do embalsamamento americano", foi contatado pela ex-primeira-dama Mary Todd, que acompanhara seu trabalho de preservação em soldados vítimas da guerra. Ele usava o método de Gannal, lavando o sangue das veias e enchendo as artérias com álcool.

O resultado foi uma aparência tão realista que as pessoas não se cansavam de tocar o rosto de Lincoln para se certificar que sua pele estava fria. A qualidade da preservação, porém, acabou diminuindo ao longo das três semanas de viagem, com excesso de paradas e sob várias condições climáticas, conferindo ao rosto do ex-presidente uma aparência medonha.

(Fonte: Association of Army Dentistry/Reprodução)(Fonte: Association of Army Dentistry/Reprodução)

De qualquer forma, a técnica de Holmes fez um sucesso estrondoso, tornando o embalsamamento uma tendência nacional. As pessoas encontraram no método uma maneira de poder planejar melhor funerais e velórios, que se tornaram um verdadeiro evento, uma vez que a própria guerra já havia transformado os costumes tradicionais.

Carpinteiros locais e taxistas começaram a oferecer serviços funerários, com agentes funerários até ganhando certificados de treinamento de "vendedores de fluidos" para embalsamamento.

Assim surgiu a primeira problemática que construiu as bases para a milionária indústria funerária moderna: as pessoas não podiam mais enterrar os seus. Dessa forma, o custo disparou com todos os processos necessários e taxas cobradas, apenas para que alguém pudesse morrer em paz.

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