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Por que Jerusalém não é a capital de Israel?

Nos últimos dias, o mundo todo tem acompanhado com tensão uma nova onda de violência no conflito entre israelenses e palestinos. Essa é uma guerra que, entre períodos mais ou menos violentos, já se arrasta por sete décadas, desde a criação do Estado de Israel, em 1947. O papel de Jerusalém como capital desse país — ou não — é uma parte essencial da disputa. Entenda o porquê.

Jerusalém é reivindicada como capital de Israel, mas também da Palestina (Imagem: Wikimedia Commons)Jerusalém é reivindicada como capital de Israel, mas também da Palestina (Imagem: Wikimedia Commons)

Dois novos estados, com a mesma capital

As origens da disputa sobre Jerusalém remontam à própria criação do estado de Israel, logo após a Segunda Guerra Mundial. Em resumo: o movimento sionista, pela criação de um estado para o povo judeu, existia desde o século XIX. Ao longo do século XX, cada vez mais judeus migraram para região, que pertencia ao Império Otomano — e passou para o Britânico, quando este primeiro caiu, com o fim da Primeira Guerra Mundial

Com o Holocausto, o movimento pela criação do país judeu ganhou força e a recém-criada ONU (Organização das Nações Unidas) traçou o plano para isso: o território do Mandato Britânico da Palestina seria dividido entre judeus e muçulmanos. 

Nesse contexto, Jerusalém não pertenceria a nenhum dos dois novos países, mas seria uma cidade com status especial, administrada pela ONU. O plano foi por água abaixo já em 1948, quando judeus e árabes entraram em guerra pela primeira vez. 

Uma cidade sagrada para todos, mas dividida

Após o primeiro conflito, a Jordânia (país de maioria muçulmana) tomou o controle da parte oriental de Jerusalém, enquanto Israel ficou com a parte Ocidental e a declarou como sua capital. Muros e pontos de controle foram construídos em meio à cidade. Os árabes da Palestina ficaram sem constituir seu estado.

A situação é complicada pelos motivos políticos, mas também pelos religiosos. Isso porque Jerusalém é uma cidade sagrada para o judaísmo — era o centro do povo de Israel, da antiguidade, além de conter o Muro das Lamentações e outros lugares de culto. Porém, ela tem o mesmo peso na fé islâmica, que acredita que foi a partir desse local que o profeta Maomé subiu aos céus. Os cristãos também têm Jerusalém como parte de seu culto, mas não participam do conflito ativamente.

O Domo da Rocha é um local sagrado para os muçulmanos, em Jerusalém (Imagem: Wikimedia Commons)O Domo da Rocha é um local sagrado para os muçulmanos, em Jerusalém (Imagem: Wikimedia Commons)

A Guerra dos Seis Dias e o "fim" da divisão

Após os conflitos de 1948, a nova ideia era que Jerusalém Ocidental ficasse sob controle israelense, enquanto Jerusalém Oriental seria a capital do novo Estado da Palestina. Mas essa proposta também não durou muito.

Em 1967, árabes e judeus travaram uma nova luta armada, a Guerra dos Seis Dias. A partir disso, os israelenses tomaram o controle de Jerusalém Oriental e a anexaram à sua parte da cidade. Além disso, começaram a ocupar diversos espaços na Faixa de Gaza e na Cisjordânia — que deveriam ser da Palestina, segundo o plano da ONU. 

As leis de Israel definiram Jerusalém como sua capital "única e indivisível", a partir de 1980. Mas, como a decisão é bastante polêmica, a maioria dos países mantém suas embaixadas em Tel-Aviv, segunda maior cidade do país, a 90 quilômetros de Jerusalém. 

Tel Aviv, a 90 quilômetros de Jerusalém, é sede da maioria das embaixadas (Imagem: Wikimedia Commons)Tel Aviv, a 90 quilômetros de Jerusalém, é sede da maioria das embaixadas (Imagem: Wikimedia Commons)

As polêmicas mudanças de capital

O assunto voltou ao centro do debate a partir de 2017, quando o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, disse que iria reconhecer Jerusalém como capital de Israel e transferir as missões diplomáticas de seu país para a cidade. O presidente brasileiro disse que iria fazer o mesmo, gerando conflitos com os países árabes, grandes parceiros comerciais. 

Na prática, todo o território de Jerusalém já é administrado por Israel e o país mantém diversas estruturas de seu governo, como o parlamento, por lá. Mas mudar embaixadas de lugar e reconhecer esse status, oficialmente, é visto como um aval às ocupações de Israel no território palestino e seria um problema para possíveis acordos de paz. 

O Estado da Palestina acabou sendo criado apenas entre o final dos anos 1980 e início dos anos 1990, com reconhecimento limitado da comunidade internacional e controle apenas parcial de seu território, na Cisjordânia — há diversos assentamentos israelenses na região. Já a Faixa de Gaza, que também deveria ser território palestino, passou para as mãos do grupo Hamas. Jerusalém Oriental ainda é reivindicada como capital do Estado da Palestina, mas o governo realmente fica em Ramallah, ao norte.

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