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'Envenenar o poço': a tática de guerra usada pelo Estado Islâmico

Acredita-se que a expressão poison the well, ("envenenar o poço"), muito usada na língua inglesa e que significa "causar danos à reputação ou credibilidade de alguém, ou algo, especialmente por meio da divulgação de informações falsas ou negativas", tenha se originado no século XIV, quando os povos judaicos foram acusados de causar doenças por envenenarem os poços de água, causando a morte de centenas de habitantes. Na verdade, aquele era o primeiro indício da avassaladora Peste Bubônica, e não tinha em nada a ver com os judeus.

(Fonte: Jewish Review of Books/Reprodução)(Fonte: Jewish Review of Books/Reprodução)

No entanto, não foram só os povos étnicos que sofreram ataques. Na Bélgica e na França houve centenas de casos de pessoas leprosas que foram queimadas vivas após serem acusadas de envenenar nascentes e riachos. Segundo seus algozes, eles teriam sido vítimas da "corrupção judaica". 

Por medo de envenenamento, ao longo de 100 anos, os judeus foram proibidos de consumir alimentos e bebidas destinados aos cristãos.

Já no século XVI, os holandeses costumavam estourar diques para impedir que os exércitos estrangeiros avançassem por suas terras, e foi essa tática de guerrilha que firmou a expressão "envenenar o poço".

O uso como arma

(Fonte: Slate/Reprodução)(Fonte: Slate/Reprodução)

Atualmente, o Estado Islâmico (ISIS) tem usado essa tática contra civis que não cedem apoio à invasão de alguma cidade, fazendo disso uma arma potencial de guerra. Tanto em rios, poços e lagos, os terroristas despejam veneno para que as pessoas sejam forçadas a se curvar perante seus gostos.

Em 2014, na aldeia Sheikh Romi, a leste da cidade de Snune, o ISIS obstruiu um poço com óleo e jogou diversos escombros de metal na água. Em pouco tempo, um distrito agrícola exuberante foi reduzido a um deserto inóspito de poeira e prados ressecados.

(Fonte: Newsweek/Reprodução)(Fonte: Newsweek/Reprodução)

“O valor fundamental da água para a vida a torna um alvo atraente durante um conflito”, disse Peter Gleick, cientista e especialista em água do Pacific Institute, na Califórnia. Ele ressalta que essa manobra é uma violação dos direitos humanos, mas que nunca impediu que não fosse usado em locais em guerra.

Era 2450 a.C, e as cidades de Lagash e Umma ficavam na atual região sul do Iraque, quando o rei de Lagash, Eannatum, teria cortado o acesso a alguns canais de água durante um conflito contra Umma, condenando a cidade a uma aridez eterna.

Preocupações futuras

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Pinterest/Reprodução)

Existem relatos de que o imperador romano Frederick Barbarossa, no século XII, lançou cadáveres humanos em poços durante uma campanha para conquistar a Itália em 1155, classificando seu ato na história como uma das primeiras forças de guerra biológica.

Em 1187, Nácer Saladino, o grande chefe militar curdo muçulmano, privou os exércitos dos cruzados do acesso à água na Terra Santa, causando a derrota deles em Hattin. Ele também teria enchido de areia os poços dos cristãos locais como punição por cooperarem com seus inimigos.

Durante a Operação Alberich, quase no fim da Primeira Guerra Mundial, conforme o exército alemão foi recuando para uma linha de defesa no norte da França, eles foram sujando poços, escavando estradas e derrubando árvores para plantar minas terrestres ao longo do caminho.

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Pinterest/Reprodução)

Na Segunda Guerra Mundial, em 1942, a Alemanha de Adolf Hitler destruiu colheitas e propriedades no norte da Grécia. “O local foi transformado em uma zona morta”, escreveu Mark Mazower, autor do livro Inside Hitler’s Greece: The Experience of Occupation. Com a retirada da dominação das tropas do Eixo, várias aldeias nunca mais se recuperaram com seus poços sujos com cadáveres de animais.

Na modernidade, em 1988, Saddam Hussein liderou o movimento de envenenamento de poços no Curdistão, incluindo o tenebroso ataque químico aerotransportado lançado sobre a cidade de Halabja.

Com a contínua prática, os hidrologistas temem uma destruição irreversível de poços de água em alguns locais nos próximos anos. “Estamos fazendo uma análise dos dados agora na cronologia do conflito e, mesmo deixando de lado as questões da qualidade dos dados ao longo do tempo, há tendências muito claras de aumento de ataques a locais com água e aumento do uso de água como arma", apontou Gleick. "Eu acho que isso reflete a pressão crescente sobre a água em todo o mundo”.

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